AUTOR E CURADORADORIA: IVO MARTINS
EDIÇÃO: (Catálogo) Centro de Estudos de Jazz da UA - Universidade de Aveiro DATA: Junho de 2025 - Junho de 2026
Prefácio
Susana Sardo
Diretora do Centro de Estudos de Jazz Curadora Científica dos Arquivos de Som da Universidade de Aveiro
O Centro de Estudos de Jazz foi oficialmente criado a 14 de agosto de 2007, na sequência da transferência do acervo do divulgador de jazz José Duarte para a Universidade de Aveiro. A este acervo, com centenas de fonogramas, livros e manuscritos de programas radiofónicos e televisivos sobre jazz, veio a juntar-se a coleção de discos de vinil de Carlos Martins (2009), a coleção de discos de goma-laca de Alan Spennock (2015), e, em 2022, o acervo de Manuel Jorge Veloso que inclui discos de vinil e CDs, livros, filmes e mui-tos manuscritos associados aos programas de divulgação e outras iniciativas do autor. Para além de muitos materiais de arquivo e objetos pessoais, estes colecionadores e divul-gadores de jazz legaram à Universidade de Aveiro o compro-misso de manter as suas coleções vivas. É esse compromisso que o Centro de Estudos de Jazz (CEJ) procura respeitar através da investigação, da salvaguarda e da disponibilização destes acervos, que servem também de inspiração para múl-tiplas ações de divulgação de jazz, fazendo assim justiça à missão dos seus doadores.
No ano em que o CEJ cumpriu 18 anos, decidimos assinalar a sua maioridade através de uma exposição que permitisse interpretar parte do legado dos doadores nele representados.
Aproveitámos a quinta edição do Campus Jazz – uma iniciativa internacional organizada a partir do CEJ desde 2021 – para o fazer, e Ivo Martins pareceu-nos a escolha inevitável para o pensar. Com 30 anos de experiência como diretor artístico do prestigiado Guimarães Jazz, e com mais de 50 exposições no seu currículo como curador, Ivo Martins mergulhou no CEJ a partir dos acervos que ele guarda, convocou o legado imaterial daqueles que construíram esses acervos e chamou à exposição Corpo e Alma. Este título não é inocente. Ele remete para a canção Body and Soul – composta em 1930 pela atriz e cantora inglesa Gertrude Lawrence e que se transformou num dos mais importantes temas canónicos de Jazz – e também para o que o CEJ guarda de mais precioso e que está para lá de toda a materialidade: o lugar múltiplo a partir do qual cada um dos doadores presentes “pensou e sentiu” o jazz. Como escreveu Ricardo Reis, “vivem em nós inúmeros”.
Ivo Martins chamou o escritor Manuel João Neto e a designer Vera Velez para se juntarem a ele nesta missão de dar Corpo e Alma a uma exposição sobre o CEJ. E juntos decidiram fazer-nos percorrer uma floresta de palavras suspensas para descobrir um mural de 88 capas de discos de vinil represen-tativos da história do jazz; explorar a memória gráfica dos festivais de jazz em Portugal, dispersa em cartazes unidos às paredes do CEJ com as salinas ao fundo; conhecer o primeiro rádio onde José Duarte se encontrou com jazz ou as baquetas usadas por Manuel Jorge Veloso no filme Belarmino, a primeira longa metragem de Fernando Lopes (1964) para a qual Manuel Jorge compôs e dirigiu a banda sonora que ele próprio inter-pretou na bateria. Mas estes são apenas pequenos/grandes apontamentos que ressaltam da exposição Corpo e Alma, aos quais se juntam manuscritos dos programas radiofónicos Cinco Minutos de Jazz ou Pão com Manteiga, escritos pela mão do próprio José Duarte; os guiões do programa televisivo TVJazz, datilografados por Manuel Jorge Veloso; os primeiros boletins do Clube Universitário de Jazz, fundado por Raúl Calado em 1957 e encerrado pela PIDE em 1961; ou os álbuns anotados de Alan Spennock nos quais cada disco é enriquecido com recor-tes de jornal, notas manuscritas e outra documentação impor-tante que nos permite perceber as rotinas na relação com o jazz deste antigo jogador de râguebi e administrador da agência britânica do National Westminster Bank que se radicou em Portugal na década de 1980. Juntam-se ainda sinais da implan-tação do jazz profissional em Portugal através da seleção de um conjunto de discos, livros e outra documentação que nos mostram como foi difícil, em tempos politicamente obscuros, levar o jazz a sério no nosso país. Entre os discos de Spennock, produzidos nas décadas de 1920, 30 e 40, e o primeiro disco de jazz produzido em Portugal por músicos portugueses (Malpertuis, Rão Kyao, 1976), estendem-se 50 longos anos de resistência e de desejo. Corpo e Alma torna visível esse tempo: revela-o em imagens, objetos, papéis, vozes e sons, devolvendo-nos uma história de escuta feita de obsessões e fidelidades. Escutam-se ali José Duarte e Manuel Jorge Veloso, mas escutam-se também todos os outros que, de modos diversos, foram abrindo espaço para que o jazz pudesse ser pensado, vivido e partilhado entre nós. No fundo, é disso que esta exposição trata: da forma como uma música atravessa vidas, cria comunidade e permanece, mesmo quando parecem restar apenas vestígios em forma de arquivo. Corpo e Alma lembra-nos que nenhum arquivo é silencioso quando nele continua a bater uma paixão.
Preâmbulo
Ivo Martins, Manuel João Neto
Hoje vivemos um problema de excesso de informação e de desequilíbrio em relação aos mecanismos de assimilação de conhecimento. A nossa cultura de abundância de documentação reflete uma situação paradoxal em relação ao conceito de arquivo, no sentido em que este costumava servir para sinalizar a importância intrínseca de objetos e documentos produzidos em épocas de escassez arquivística. A cultura do mundo digital com a qual atualmente convivemos inaugurou um campo de atuação extremamente desmaterializado que teve o efeito de ampliar a visibilidade da música, tornando-a omnipresente. Esta circunstância promoveu de alguma forma um movimento de retorno e recuperação do espólio do passado no sentido da reinterpretação das narrativas associadas à criação e à divulgação da arte musical.
Baseando-se num arquivo existente, Corpo e Alma, é uma construção a partir de uma construção prévia (o acervo do Centro de Estudos de Jazz da Universidade de Aveiro) fundada numa forma peculiar de música popular que em muitos sentidos corporiza o espírito do século XX. O trajeto desta exposição desenha uma espécie de arqueologia sentimental e mapea-mento sociológico do jazz nas suas múltiplas manifestações, deambulando livremente pelo ecletismo de zonas obscuras e por pressupostos originários de espaços e dinâmicas tempo-rais distintas. Com esse objetivo usámos todos os materiais a que tivemos acesso – investigações, vivências, reflexões e testemunhos de indivíduos que assistiram à construção de momentos importantes do fenómeno jazzístico – mas, ao mesmo tempo, também fizemos o nosso próprio processo de avaliação crítica e criámos narrativas pessoais.
Nas coleções do Centro de Estudos de Jazz o tempo e o espaço comprimem-se num campo histórico informe que une pensamentos, alusões, ideias, causas, consequências, razões, explicações, argumentos, invenções, descobertas tecnocientíficas e jogos de poder. Tudo isto compõe um ma-terial irregular e desviante, sem direção definida. As temáticas estão entregues a si mesmas, aparecendo, desaparecendo e reaparecendo em campos de estruturação não-lineares e não-cronológicos, revelando-se, em certo sentido, anti-históricos. Porque os conteúdos das diversas histórias do jazz são abundantes em respostas nem sempre percetíveis e nem sempre calculadas, é impossível integrar num enorme con-junto de ideias um todo coerente e definitivo condensado nas inúmeras situações apresentadas.
No entanto, e apesar de conscientes das suas limitações, na síntese de experiências pessoais e perspetivas estéticas apreentada na exposição Body and Soul, e agora também neste livro, pressente-se uma história da sedimentação do estatuto iconográfico do jazz no contexto da arte do século XX.
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