AUTOR E CURADORADORIA: IVO MARTINS 

EDIÇÃO: (Catálogo) Centro Cultural Vila Flor     DATA: Janeiro - Abril de 2026 

 

 

 

 

 

Talvez Fosse Bom…

 

… que parássemos para reflectir acerca da intensidade das nossas ligações internéticas.

 

Todos imaginamos que desligar da rede é uma decisão discutível, e temos dúvidas até de que este acto fosse resolver alguma coisa, isto é, se muitos dos nossos problemas colocados pela rede seriam atenuados nos seus efeitos práticos. Se aceitássemos que um dia seria viável abrandar a velocidade actual das nossas interacções online, prestando uma maior atenção às consequências negativas das diversas coisas que fazemos, talvez fosse interessante pensar sobre a melhor maneira de gerir a influência da internet nas nossas vidas. No entanto, esta hipótese, a existir, ainda se afigura distante, uma vez que todos sentimos que a rede é na verdade muito mais complexa e extensa do que parece à superfície.

 

Todos nós nos encontramos, enquanto membros da comunidade humana, numa cadeia complexa de acontecimentos cada vez mais invisíveis e imperceptíveis nos seus processos, os quais não dominamos, causando manifestações e efeitos sistémicos. Nesta situação, quando os cidadãos constatam que os seus canais de ligação foram, mesmo que momentaneamente, interrompidos, reagem de uma maneira um tanto ao quanto disfuncional e intempestiva, uma vez que todos fomos sendo habituados a viver numa realidade em modo non-stop. Esta realidade actua de maneira impositiva e invasiva, não nos dando nem o tempo nem o espaço para reflectirmos nas nossas decisões; e, quando somos forçados a interromper as nossas rotinas dentro da velocidade da rede, a continuidade dos nossos procedimentos entra em crise. Perante contextos de ruptura, os nossos actos tornam-se inesperados e por vezes até aleatórios, num quadro caótico de actuação em que as pessoas ficam completamente à deriva. Quando estamos na rede estamos a ser rotinados e guiados por esquemas de funcionamento que vão actuando sobre nós de modo constante, pelo que com o tempo deixamos de conseguir imaginar outras formas de agir em cenários que são radicalmente diferentes, isto é, dentro de dramaturgias que, pelo facto de não serem imaginadas, antecipadas ou controladas por nós, não nos permitem descobrir ou criar novas abordagens e soluções diferentes.

 

Porque quando somos obrigados a parar, percebemos que deixamos de saber o que fazer.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

No domínio do que é imediato prevalecem tipos de conhecimentos de curto alcance. Assim sendo, temos de admitir que uma parte substancial das nossas vidas, assim como da consciência colectiva do mundo global, está a ser influenciada por elementos narrativos que a própria rede confecciona, adaptando-os às nossas características pessoais. Estas abordagens são todas elas estabelecidas a partir da informação que é produzida por nós próprios, bem como pelos padrões da nossa actuação, posteriormente utilizados com propósitos estratégicos de maneira a modelar os nossos actos como um objecto moldável, dentro de um campo de forças activador de decisões cujos dispositivos algoritmos servem para orientar os indivíduos.

 

Esta regulação sistémica dos comportamentos e discursos é concretizada através da exponenciação de dimensões interactivas fomentadas pela rede, enquanto ligação permanente que confere ao utilizador uma sensação de unidade. Porém, esta ligação é estruturada e processada a partir de fora, caracterizando-se pelo facto de os utilizadores, apesar de estarem totalmente interligados, constituírem uma realidade fraccionada e cada vez mais abstracta e encadeada. Todos estamos sujeitos a essa tal unificação, em muitos aspectos forçada e artificial, desenvolvida pela força do espaço cibernético.

 

Apesar dos efeitos perniciosos deste programa de condicionamento, a verdade é que sem matrizes de orientação ficamos reféns de uma vertigem comunicacional que os nossos comportamentos online, devido à sua complexidade, não conseguem acompanhar. No formato de entrevista jornalística, tornou-se comum perguntar qual seria o livro ou a música que a pessoa entrevistada levaria consigo para uma ilha deserta. Independentemente da nossa convicção ou descrença nas qualidades salvíficas de certas obras literárias, musicais ou artísticas, neste momento em que vivemos talvez a melhor resposta a esta questão fosse dizer que levaríamos antes um manual prático de construção de embarcações: porque já não há ilhas desertas, e porque o mais importante de qualquer situação de isolamento seria conseguir escapar deste problema.

 

O que mudou fundamentalmente ao nosso redor é que, entretanto, a rede se transformou num suporte essencial de vida.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

O mundo actual contém muitos outros mundos simultâneos, incluindo os imaginários — aqueles em que viajamos num trajecto imóvel que percorre veredas de pixéis no ecrã do computador ou de um telemóvel, lugares que se tornaram o refúgio interior de um novelo de relações que mudaram a nossa vida. A introdução da fibra proporcionou novas aberturas para outros espaços de apreensão, em superfícies de visualização mais abertas, mais abstractas, mais digitais, a que alguns autores chamam hiper-realidade. Milan Kundera uma vez escreveu que nós «habitamos o planeta da inexperiência, uma vez que somos incapazes de valorizar o que já aconteceu». Quando está na rede, a grande maioria das pessoas age como se as coisas estivessem a acontecer pela primeira vez, mesmo quando são situações similares a outras ocorridas no passado ou quando não passam de réplicas de acontecimentos anteriores, permanentemente ampliadas pela quantidade, continuidade e intensidade… do tempo que passamos online. Nesse sentido, podemos dizer a esfera cibernética em que vivemos constiui uma espécie de «presente eterno», uma segunda vida formada por uma realidade virtual que nos envolve como se fosse uma «galáxia digital».

 

Jacques Rancière vai ao ponto de questionar se «daqui em diante já não existirá realidade, mas unicamente imagens, ou, inversamente, que já não há imagens, mas tão-só uma realidade que incessantemente se apresenta a si própria? Estes dois discursos parecem opostos. Sabemos, todavia, que não deixam de se transformar um no outro em nome de um raciocínio elementar: se já só existem imagens, já não há um outro da imagem, a própria noção de imagem perde o seu conteúdo, já não há imagem. Diversos autores contemporâneos opõem assim a Imagem, que remete para um Outro, e o Visual, que só remete para si mesmo».

 

Estes processos têm-nos subtraído da presença viva da voz do outro — daquele que cria arte; daquele que faz música; daquele que transforma o mundo em linguagem; daquele a quem a rede retira a possibilidade de usar a linguagem que é originalmente nossa, logo humana, e que só adquire materialidade no momento em que chamamos pelo outro. Hoje usamos frequentemente uma comunicação sem voz, ou com uma voz modulada por constrangimentos comunicacionais. Queremos convencer os outros enquanto abdicamos cada vez mais convictamente da comunicação com os outros, uma vez que uma parte substancial das nossas relações é mediada por dispositivos técnicos, num processo em que o outro é praticamente excluído, dispensado enquanto presença com voz própria. No final, prescindimos da presença do outro e substituímo-la pela do algoritmo.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Com a descoberta do conhecimento, o saber passou a ser uma espécie de projecto de vida para uma navegação solitária: algo que se define numa circulação à vista que estará sempre limitada e relativizada pelos aspectos que vemos e desconhecemos. Muitas vezes, porém, esse conhecimento revela-se circunstancial e sujeito a actualizações permanentes que prevemos nunca virem a terminar, o que em resumo nos permite dizer que nunca saberemos o suficiente para suprimir todas as nossas necessidades.

 

Na vida, ao contrário do que acontece na rede, nada se repete. Assimilar é um momento que implica esforço. O acto de conhecer só se concretiza através de uma memorização assente na repetição; e aquilo que pressupõe memorização implica uma ligação com o passado. Só nos tornamos potencialmente sábios se absorvermos retrospectivamente a experiência e a informação, sendo que este retroagir faz-se de maneira inconsciente. Em cada um dos nossos actos existe sempre, portanto, um défice, uma carência irresolúvel que nos torna ao mesmo tempo conhecedores e ignorantes do mundo que nos rodeia. É através destas alterações de contacto que vão acontecendo de forma imediata e constante que as nossas ligações, apoiadas pelos mais diversos tipos de suportes e dispositivos de divulgação, se convertem numa versão difundida da verdade baseada numa realidade intermediada.

 

Um acontecimento tão estranho, imprevisto e singular como um apagão na rede de energia eléctrica é a prova provada de que existe uma relação diferente entre vida e tecnologia que pode transformar um acidente aparentemente simples numa crise complexa e incontrolável que teremos de aprender a dominar por forma a assegurar a nossa sobrevivência. Perante situações extremas como esta, somos convidados a pensar de modo audaz e especulativo, frequentemente na contracorrente das coisas e na margem dos esquemas padronizados de repetição característicos do espaço cibernético.

Porque quando somos obrigados a parar, percebemos que nos é oferecida a possibilidade de reaprender quem somos e o que fazemos.

 

 

 

 

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[ENGLISH]