AUTOR: IVO MARTINS 
EDITION: Revista "Guimarães - Cidade Visível" - Câmara Municipal de Guimarães     DATA: Jul - Dez 2015 



































O Guimarães Jazz conta já vinte e três etapas numa longa história de divulgação do jazz ao público português,
que o confirmam como um caso raro de longevidade, persistência e capacidade de implantação na muitas vezes
instável e precária paisagem cultural nacional, e afirmando-o simultaneamente como um evento no qual se
conseguem construir pontes temporais, estéticas e geográficas. Numa época em que as palavras “inovação” e
“mudança” parecem ter-se instalado em definitivo no léxico do discurso contemporâneo, o Guimarães Jazz surge,
um pouco em contraciclo, como um pólo agregador de estabilidade, respeito pela história e tradição da música e
convicção nos valores que nos guiaram desde o início deste trajecto; no entanto, o festival é também, num
ambiente cultural em que a resposta perante a incerteza e o desconhecido redunda muitas vezes no cavar de
trincheiras e no isolamento do sujeito nos espaços dogmáticos das respostas imutáveis, um lugar de celebração
da liberdade e que assume o risco de enfrentar a multiplicidade de caminhos e possibilidades que marcam a arte
do presente.

Abrangendo todos tipos de jazz, do mais radical ou extremo, ao mais tradicional ou antigo, perguntamo-nos se,
numa época em que a especialização é um requisito de integração, o Guimarães Jazz prefigura o melhor modelo
de afirmação e sedução do público. Mediante as reacções obtidas acreditamos ser este o método mais eficaz de
difusão. O festival é um espaço aberto à diversidade e à divulgação da música, não havendo, na sua concepção,
lugar ao preconceito. Nos nossos dias, o conceito de jazz tornou-se demasiado estreito para dar conta de todos os
seus fenómenos - como sucede com variadíssimos conceitos complexos, a sua amplitude acaba por mascarar a
realidade e, quando o tentamos definir, somos confrontados com inúmeras excepções, casos que apenas abarcam
alguns dos seus critérios enunciados e não abrangem todos os atributos estabelecidos para a sua inequívoca
classificação. Este problema leva a afirmar que para se produzir juízos de valor sobre o jazz é necessário
encontrar um limiar mínimo de identificação, forçosamente arbitrário.

Ao longo das várias edições do festival, temos apresentado todas as formas e estilos musicais, pelo que não pode
ser visto como um acontecimento temático, fechado numa tipologia, num estilo, num género ou numa categoria
específica, circunscrito e direccionado para a satisfação de um grupo restrito de seguidores. Apesar da passagem
dos anos, das alterações conjunturais, das modificações do contexto, da evolução nos processos de comunicação e
da consequente facilidade de acesso à música, o festival mantém intactos os seus traços distintivos e conceitos
fundadores. Face às profundas mudanças ocorridas nos hábitos sociais e no consumo das sociedades
contemporâneas, enquanto bloco de momentos concentrados em dez dias de jazz intensamente vivido, a
plataforma tem conseguido corresponder às expectativas do público, cujo valor de confirmação se reflecte na sua
presença. Para que um acontecimento se perpetue precisa de tempo. Quando se vive numa sociedade onde se
quer tudo muito depressa, no agora e no instante imediato, o sucesso é tão veloz, como volúvel e efémero,
exigindo de nós um trabalho contínuo de adaptação e ajustamento. No mundo da imagem e da comunicação o
que não tem impacto mediático, não existe. O tempo garante solidez a tudo o que se faz e, apesar disso, as
pessoas recusam a consistência proporcionada pela regularidade das experiências lentamente assimiladas,
optando por rumos apressados, fictícios e incertos.

Um festival de jazz é sempre um acontecimento temático, limitado pelos enquadramentos culturais a que tem,
obrigatoriamente, de se vincular. Tendo o jazz como elemento agregador, é impossível concebê-lo sem
efectuarmos retornos ao passado, sem os quais é impensável imaginá-lo em termos de futuro. O passado
desempenha um papel importante, assumindo-se como fonte de legitimação. Persiste uma profunda
ambivalência no acto de negar a tradição porque, ao mesmo tempo que a recusamos, consideramo-la um
elemento essencial de referência, na estruturação e leitura histórica desta música. O futuro não existe como
entidade objectiva, a sua previsão é sempre uma hipótese em aberto. Nas sociedades cosmopolitas e nas
organizações informadas, as soluções dos problemas já não são consideradas como certas, nem aplicadas como
óbvias: são continuamente reavaliadas e sujeitas a críticas. O distanciamento da tradição é proveitoso pois
implica que todos os formatos instituídos e aceites sejam reflexivamente postos em causa e tenham de se explicar
a si próprios, expondo-se a um questionamento crítico. Contudo, é impossível prescindir da memória porque ela
nos permite juntar os pedaços deste mundo disperso e fragmentado e dar-lhes uma forma coerente. O olhar
retrospectivo ajuda a imaginar novos mecanismos de actuação; no entanto, se o nosso objectivo for o de apenas
suscitar fáceis e imediatas adesões, promovendo o encontro acrítico do acontecimento com as pessoas, a tarefa de
se delinear um futuro interessante para o Guimarães Jazz pode tornar-se um empreendimento de difícil
concretização.

Antigamente, o homem estruturava a sua vida num quadro de grandes narrativas, projectando as suas
esperanças de mudança do mundo e as suas utopias a vários níveis (religioso, sociológico, político, económico).
Todo o planeamento pressupõe a crença num futuro. Hoje em dia, não estão reunidas condições de permanência
nem de regularidade nas relações capazes de nos proporcionarem um meio saudável e constante para
descobrirmos um sólido devir colectivo. Vivemos tão dentro do presente que perdemos uma das dimensões
estruturantes do tempo e o passado encontra-se muito menos iluminado. Temos de colocar estas questões em
perspectiva e de forma mais geral. A própria sociedade tem dificuldade em se reestruturar em termos de futuro
porque não há tempo nem espaço para se vislumbrar um horizonte minimamente estável e expectável, capaz de
nos fornecer uma superfície regular de intervenção. A incerteza associada à modernidade recente já não pode ser
gerida de acordo com padrões convencionais e institucionais que a tratam como assunto quantificável e
mensurável.

A música e o jazz são áreas que se influenciam e confundem muitas vezes, se bem que digam respeito a realidades
diferentes. É evidente que quando se ouve jazz, se escuta música e quando se faz um festival, promove-se também
o gosto pela arte musical. Neste sentido, o Guimarães Jazz cumpre uma dupla função: divulga o jazz, e estimula
o interesse pela música. Durante os primeiros anos, foi difícil de estabelecer a fronteira que separa estas duas
esferas, confundindo-se frequentemente o jazz e a música popular ao propor cruzamentos menos óbvios e mais
arriscados entre estilos e linguagens diferentes. Hoje, a diversidade e a dispersão dos estilos tornam redundantes
classificações e identificações; a maior parte das pessoas movimenta-se no mundo da música de maneira
descomprometida, sem preferência declarada por qualquer tipo ou estilo. Porque a melhor maneira de desenhar
o festival passa pela compreensão e descodificação da ambiguidade desta conjuntura e pelo carácter volúvel das
sensibilidades, não lhe queremos dar uma orientação estilística exclusiva. Se agíssemos em sentido contrário, isso
equivaleria à restrição na acessibilidade e o nosso principal objectivo é o de desenvolver uma fórmula que
desperta curiosidade e interesse pela música enquanto matéria de exploração, tanto a um nível pessoal como
transpessoal. O objectivo de cada alinhamento será, portanto, o de transformar um concerto num processo de
conhecimento e de amadurecimento intelectual, assimilável por qualquer pessoa, sob múltiplos níveis de
exigência, a ser convertido em novas formas de compromisso e de cooperação. Todas as escolhas geram, por si só,
dúvidas em relação ao sucesso do acontecimento e provocam uma sucessão de dilemas, associados aos
fundamentos instáveis da experiência adquirida ao longo dos anos.

Assim sendo, só se pode fazer leituras fiáveis quando se tem a certeza de que o público pensa e age com
autonomia; o seu comportamento é mais autêntico porque não é influenciado. Ser-se organização implica não se
ser público; a condição de programar não deixa fruir o momento, segundo essa óptica. Estar do lado de cá do
pano faz-nos experienciar cada instante de modo diferente, embora sentados na plateia. Trocamos o estatuto de
público pela possibilidade de desfrutarmos da sua presença.

(o autor escreve segundo a antiga ortografia)



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