AUTOR E CURADORADORIA: IVO MARTINS 

EDIÇÃO: (Catálogo) Centro Cultural Vila Flor     DATA: Maio - Agosto de 2026 

 

 

 

 

 

“Temos de saber que estamos a resistir e que estamos a resistir – e isso significa ser curioso, em vez de ansiosamente impressionistas, sobre aquilo a que nos sentimos tentados a resistir; e admitir que o que estamos a fazer é efetivamente resistir, e não sermos nós próprios ou a sermos bastante criteriosos. É esse, evidentemente o propósito da psicanálise enquanto tratamento: na sua forma mais radical, afirma que aquilo a que chamamos viver a nossa vida, ou sermos nós próprios, ou fazermos o que podemos, é na verdade viver num estado de resistência hiper-vigilante.”


- ADAM PHILIPS, A Vida que Queremos

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Depois de passarem tantos anos, depois do aparecimento da internet, redes sociais, algoritmos...  percebemos melhor as condições em que as pessoas vivem atualmente. No passado o contexto por onde se desenrolava a vida, o trabalho, as atividades sociais... era diferente. Cada pessoa estava mais circunscrita a processos de sobrevivência, cuja atenção não estava tão sequestrada por procedimentos internéticos que nessa altura não invadiam de modo tão ostensivo a esfera pessoal dos indivíduos. E, apesar de todas as nossas dificuldades relacionadas com o poder económico, poder da comunicação/informação, imagens... a realidade parecia-nos mais livre, mais distante das imposições suscitadas pelo mundo digital. Assim, podemos dizer que no passado cada pessoa tinha mais tempo para organizar o dia a dia, a vida com a sua família, a vida sentimental, social, emocional, afetiva, cultural... havendo nesta disposição uma maior disponibilidade de tempo para tomarmos decisões, mesmo que estas estivessem por vezes confinadas a parâmetros demasiado estreitos. Contudo, por mais agressivo que fosse esse regime de existência os nossos comportamentos não se encontravam tão manifestamente monetizados, influenciados, manipulados... parecendo haver mais espaço, mais margem de manobra, mais campo de apreensão para que cada indivíduo fosse capaz de se construir individualmente, enquanto sujeito ativo e solidário, criando um espaço de proteção contra as invasões do mercado. Isto é, cada pessoa vivia sem muitas das imposições que incidindo sobre a vida, por mais pequenas que fossem as suas aspirações, o obrigavam a ser tão individualista. Desta maneira, percebemos que antes da grande influência desenvolvida causada pela pela net as pessoas agiam de um modo mais autónomo, sendo determinadas por decisões pessoais quiçá mais livres, mais soltas, mais abertas... nas suas diferentes escolhas.

 

Hoje vivemos num contexto fragmentado, onde cada indivíduo está a ser constantemente redefinido por protocolos, normas procedimentais, regras de acesso...   como se estivesse no interior de um grande jogo de identidade. Neste processo algo competitivo os ricos são as pessoas que nos parecem serem verdadeiramente livres para escolherem o que querem, enquanto os pobres estão limitados a serem livres para poderem perder todas as oportunidades com que são confrontados. Com a exposição “Só me Saem Duques e Cenas tristes” desejamos colocar em questão, de um modo evidente e assertivo a individualidade enquanto complexidade das atuais forças de poder. Forças que regem o mundo digital e para as quais não temos soluções, nem somos capazes de conter o modo implacável com que as relações dos indivíduos com a arte, cultura, criação... são determinadas. No mundo digital a individualidade é um todo que se constrói através de cliques, em ondas de velocidade, com mudanças quase todas incontroláveis e que são provenientes de um ecossistema que se auto alimenta e autogoverna a partir das interações humanas. Por outro lado, os jogos mais recentes da nossa sobrevivência têm mudado de direção, alternando entre parâmetros de compreensão e sujeição em que todos nós vamos experimentando no nosso dia a dia. Desta maneira, começamos a perceber ou talvez não, o poder dos algoritmos na sua definição mais recente que têm condicionado de modo extremo e intensivo as nossas condições de vida. E, o individuo que daqui resulta é tanto possuidor como possuído, sendo, contudo incapaz de se possuir a si mesmo.  

Com “Só me Saem Duques e Cenas Tristes” usamos uma expressão de cariz popular extraída do calão correntemente usado no jogo de cartas. Vamos ao mundo prosaico do elementar para alargarmos esta ideia de aleatoriedade que hoje está concentrada no poder dos algoritmos. Nesta abordagem expositiva as obras surgem-nos como trunfos num jogo que nos obriga prestarmos atenção e a concentrar-nos no que fazemos. Hoje, sentimos que já não controlamos nada, e esta incapacidade gera desfasamentos vários que não permitem fazer diversos tipos de explorações sobre o acaso, a sorte, o azar... O jogo que jogamos está viciado enquanto processo suscetível de nos provocar interrogações, dúvidas, incertezas....

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

A exposição pretende colocar cara a cara as pessoas com o sensível alimentando possíveis interpretações de algo que pode ser verdadeiramente belo e eterno e que existe em nós enquanto campos de relacionamento, associação, representação, metaforização.... para o efeito usam-se coisas, imagens, simbologias, objetos... etc. numa disposição que pretende ser dinâmica, numa exposição que pela sua maneira de comunicar se estrutura na variedade de suportes que por sua vez convocam inúmeras denúncias e avisos sobre o perigo das coisas que fazemos sem saber porquê; das coisas que não sabemos que sabemos; das coisas que nos preocupam e que nos deveriam obrigar a saber. Assim, as obras em exposição alertam-nos para a necessidade de resgatarmos uma ideia fundamental de liberdade que está para além das coisas banais, apontando discrepâncias, contradições, incoerências ocorridas nos discursos que suportam as mudanças radicais do sistema. Num processo que está em curso e que têm desviado a nossa atenção da arte enquanto centro das atividades artísticas fundamentais. Como por exemplo, fazendo-nos perceber que a entrarmos nos jogos de mercado, estamos implicitamente a aceitar a arte como parte desse campo de intervenção, o que implica aprovar novas submissões, novos procedimentos simplificadores, novas dissensões acríticas... que já não dominamos e que são contrários à nossa própria natureza. Assim, quando submetemos a obra de arte a este jogo de sorte de referências determinado pelo marcado tornamo-nos parte de um jogo de azar dominado pelo algoritmo. Nesta competição, o artista quando ganha, ganha tudo, perdendo para eventualmente a sua alma, tornando-se incapaz de empreender revoluções. Quando é jogador penetra numa lógica de soma zero onde a grande maioria os indivíduos perdem, parece concordar com o sistema, mesmo ficando fora dele. Deste modo, quem aceita jogar o jogo pelo jogo, sabendo que vai perder, não deixa de alinhar com uma situação algo estranha, aceitando as coisas como um destino. Assim, podemos dizer que esta exposição responde aos condicionalismos presentes que decorrem do facto de sermos cúmplices inconscientes de uma arte que tem sido objeto de um poderoso incremento comercial, assentes em processos de mercantilização em série. E, com a necessidade de contermos os efeitos desta sujeição os artistas desta exposição preferiram criando por um espaço individual de identificação que foi construído numa partilha anónima de ideias, onde cada obra responde por si, representando uma possibilidade de superação, na tentativa encontrarmos outras dimensões relacionais para as suas configurações. Com esta estratégia deseja-se procurar outras sentidos nos trabalhos que são expostos segundo campos de significação mais livres, sugerindo transformações nas interpretações que por contacto, se dissociam dos olhares, concebendo novas formas de ver e escutar. A diversidade de formas e materiais suscitam visões intuitivas que se desenvolvem  com aproximações táteis e este novo modo de conceber que está implícito nesta exposição pretende-se explorar outros formas de dar sentido ao que vemos, através de exponenciação das trocas, dos cruzamentos, das interações... onde se sucedem partilhas de significado que abrem novos caminhos de interpretação.

 

Neste sentido, o espaço expositivo constitui-se um local coletivo e anónimo de intervenção, um  lugar onde se jogam diferentes processos de apreensão, alguns mais descomprometidos, que outros, num jogo aberto de compreensão sujeitos a interdependências do espaço que usa o terreno expositivo como se fosse um tabuleiro de xadrez. Neste espaço ocorre uma encenação que se desenrola em diferentes momentos expressos nas ideias que arriscam, que são cúmplices, que se desconhecem, que são indeterminadas e que são feitas de sucessivos lances onde se tenta controlar a aleatoriedade.

 

Esta exposição vive no interior de um processo lúdico que é muitas vezes impercetível e que se move entre o visível, invisível, entre o óbvio e o velado, entre a luz, a penumbra e o oculto... numa arena que é partilhada por inúmeras referências imagéticas, através de objetos de diversa índole, dimensão, tratamento, forma, materiais... Coisas bidimensionais, tridimensionais, esculturas, pintura, desenho, esquiços, vídeos, sons, música, ruido...  Cada observador tem espaço para encetar e desenvolver diálogos com as suas relações mais íntimas, mais profundas, mais intensas... numa a exposição que se vai constituindo enquanto corpo de expressão coletivo que de maneira indefinida forma conteúdos, cria espaços, fomentando olhares, desenvolvendo estímulos... E, é neste processo conjunto de integração que se fazem recuperações de simbologias passadas sem cairmos em saudosismos inconsequentes. A exposição abre-se por diversos campos abertos observação, interpretação, contato, audição... exposição, ora revelando-se, ora escondendo-se, num jogo que por vezes escapa para zonas incertas de ideias que nos parecem desconhecidas e simultaneamente conhecidas, transformando o espaço através de sucessivas camadas de observação que se vão recriando em permanências impermanentes que se deslocam no sentido dos sentidos.

 

Caminhamos para o fim da arte liberal e não sabemos o que vem a seguir.

 

 

 

 

 

 

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