AUTOR: IVO MARTINS 
EDIÇÃO: Guimarães Jazz 2018 - Câmara Municipal de Guimarães/ Associação Cultural Convívio/ A Oficina     DATA: Novembro de 2018 





A música deve ser entendida como documento do tempo, um palimpsesto sonoro que se redige
permanentemente, na tentativa de procurar captar um sentido redentor para a existência. Redimir o falhanço
humano era o grande propósito da arte que procurava entender as causas de tantas manifestações excessivas e
cruéis; os artistas denunciavam, através de inúmeros processos criativos radicais, quer na forma, quer na
diversidade, a sociedade do seu tempo.

Os músicos perceberam a importância da expressividade, imaginando sons que não tinham como principal
finalidade serem belos; para estabelecerem pontes entre ética e estética, entre passado e futuro, os artistas
seguiram a sua intuição e talento ou qualquer outro tipo de indicação, seja a da música do seu mestre, maestro,
compositor ou até a das diretivas constantes em partitura; o músico de jazz sentia-se livre desse compromisso,
desejava exprimir as suas ideias de forma autónoma e aberta para assim poder sobreviver artisticamente. A ética
é-lhe fornecida pela verdade da realidade, repleta de importantes referências sensíveis; descrever o que sente com
verdade permite-lhe expressar as suas ideias; a estética é-lhe dada pela necessidade de realizar sucessivas
tentativas de formulação do real, no sentido de o captar, aperfeiçoando-o na sua arte. A insatisfação permanente
face a este propósito leva-o a procurar o inatingível, gerando um sentimento de impotência que se confunde com
o belo; a beleza é sentida como ponto inalcançável, inatingível, insuperável, somente intuído através da coragem,
da obstinação e da vontade de superar as próprias limitações. Vivendo sob um tempo de receio e de catástrofe, o
músico de jazz tinha de escapar à tensão racial do meio onde vivia, evitando que a crueldade da conjuntura lhe
provocasse o embotamento da sua sensibilidade. Os acontecimentos históricos do Século XX desencadeavam
reações de diferentes tendências: nuns casos revolta, protesto, insatisfação e sentimentos de injustiça, noutros,
degredo, isolamento, incompreensão, intolerância, violência, angústia e depressão, parâmetros sublimados na
arte ou acessos de furor negativista, relevadas na deceção e sarcasmo, na crítica mordaz, na denúncia da farsa
malévola sobre uma sociedade que reprime as atuações artísticas contra a corrente, espezinhadas por retóricas
conspiratórias de políticos sem escrúpulos, instituições desonestas e faciosas, os músicos mantiveram vivo o jazz,
reatualizando-o. Uma boa parte da sociedade necessitade controlar os atrevidos, os ousados, os críticos, os
impertinentes e os nocivos, para que sejam mantidas as normas sociais preconceituosas e segregacionistas. O
sofrimento causado por estes processos de controlo e exclusão está inscrito na génese do jazz e permanece nele
como sinal, como dificuldade, barreira, obstáculo, proibição, repressão... O jazz é fundado a partir de esforços de
libertação e negação de desejos; no seu âmago procura-se a integração e cooperação de culturas, reunidas num
todo musical chamado “mundo”.
É o circo multimédia e a propaganda persuasiva do mercado que expõe de forma obscena e arrogante a
ignorância, a miséria, a estupidez, a corrupção, a podridão... O sistema social donde provém o jazz está
contaminado pela força de uma negatividade salvadora, tornando-o uma arte que se vê e sente, no difícil papel
de expor verdades incómodas, de fazer denúncias subliminares, de negar rasuras, separações, divisões, tanto
racistas como sociais. Esta música está repleta de inúmeras mensagens contra a degradação, decadência,
cinismo, falsidade, mentira, que provocaram muitos acontecimentos políticos, económicos, sociais e culturais do
século XX. Adquirindo força de documento, papel de testemunho e elemento de memória, quando se projetou
numa realidade comunitária ideal radicada nas suas origens musicais, o jazz alcançou dimensão antropológica
dotada de um importante significado simbólico, cuja vitalidade só mais tarde seria devidamente compreendida.
A internet criou um mundo de abundância digital e vice-versa; esta nova realidade tem dificultado e complicado
cada vez mais a obtenção de lucros, segundo os métodos tradicionais de comercialização da música. Os avanços
tecnológicos, desencadeados por diversas invenções importantes, já pressagiavam o pior para a indústria
fonográfica, tal como esta era conhecida.

As histórias do jazz são factos e casos que exalam e absorvem; traduzem circunstâncias específicas e porosas,
entre contextos de diversa natureza onde a música secriou e manifestou. Quando se analisa um álbum ou um
tema desse mesmo álbum, sente-se essa vertigem, exposta na fugacidade dos momentos, na força dos instantes
captados, que não voltarão a repetir-se; os álbuns e os temas registados formam um arquivo utilíssimo mas, ao
mesmo tempo, contraditório, entre a oposição de se estar longe e ao mesmo tempo perto desses momentos; os
arquivos ou que resta deles são imagens sonoras, sons acumulados, sonoridades descontínuas, desorganizadas e
aleatórias, deslocadas do ambiente donde provêm, isto é, fora do elemento estrutural original. Só um ouvido
educado consegue orientar-se no imenso material sonoro disponível. Escutaros discos de jazz armazenados num
espaço saturado de sons pode levar facilmente o ouvinte para um mundo irreal, onde pairam a confusão, a
saturação, o esquecimento... Quem consegue retirar alguma coisa mais do que a evidência material das
sonoridades armazenadas, é obrigado a fazer um esforço de interiorização consciente de maneira a estabelecer
com o jazz um regime de proximidade e acessibilidade; só assim conseguirá sentir o que é usual e familiar, uma
sensação que pressupõe olhar o jazz como alguma coisa com a qual se estabelece diariamente relações; isto é,
como se fosse uma pessoa, alguém com quem se lida ou interage; estar próximo significa partilhar um espaço
comum de experiências, onde cada pessoa se sente à vontade, agindo sem esforço. O jazz tem uma insondável
aptidão para atrair e aprofundar relações; nele, as pessoas sentem sensações agradáveis, captando todas as suas
tonalidades, formas, combinações, pormenores, texturas, estruturas, associações, sobreposições, choques,
provocações e conflitos; sendo uma música hábil e inteligente, forma um espaço livre e aberto, onde o ouvinte
não se sente perdido, sem saber o que dizer, fazer ou seguir. Ficar por dentro desta música releva essa incrível
possibilidade de se ser testemunha de um momento único e inédito, de se saber conviver com o que tende para o
esquecimento e que, ao mesmo tempo, lhe resiste. Só deste modo se experimentará um estranho sentimento de
memória, o qual configura um elemento fundamental de compreensão. Um tema transforma-se constantemente
em coisa diferente através do contato direto entre o músico e o ouvinte.
A nitidez e o perfecionismo sonoros foram sempre assuntos irrelevantes para o vulgar consumidor, que olhava
para estes conflitos como coisas de especialistas ou de gente obcecada pela alta tecnologia. O número de vendas
de um álbum era algo que apenas interessava à indústria discográfica; o mais importante era ouvir; escutavam
música gravada de todas a maneiras. Usavam velhos discos de vinil, muitos deles riscados e repletos de ruídos,
em gira-discos pouco sofisticados; as suas preocupações com a perfeição de som eram praticamente nulas. Pode
afirmar-se que em geral o público estava pouco interessado nas condições da sua audição, não tendo grandes
exigências, quanto ao rigor ou à falta de qualidade. O seu ouvido tinha uma enorme capacidade de adaptação ao
som, escutando e aceitando qualquer música desde que gostasse dela e fosse minimamente audível.
O som de um concerto é totalmente diferente do de um registo em estúdio, embora se deva admitir que quanto à
produção musical em palco deram-se também importantes saltos qualitativos. Normalmente o som de um
concerto é de qualidade inferior e, no entanto, há uma maior predisposição das pessoas para assistirem às
atuações ao vivo. Assim, cada indivíduo prescinde do requisito de escutar um bom som, uma sonoridade quase
perfeita, em troca da força emotiva e celebradora desencadeada pela audição coletiva de uma multidão anónima,
informe e abrangente, gerada pela presença física de um músico. As pessoas vão a um concerto para se
identificarem individualmente entre si, para sentirem a partilha de um gosto musical comum e, assim,
manifestarem através da música e do culto do artista que já conhecem um consenso, uma aceitação, um gosto
pessoal; esta experiência coletiva gera sentimentos de partilha e pertença, fazendo da participação na festa a sua
motivação exterior e interior.

O divertimento desencadeado pela celebração colectiva de um concerto compensa, com satisfação e prazer, o
eventual défice da qualidade do som. Contudo, os recursos técnicos envolvidos numa apresentação ao vivo podem
tornar a música acusticamente interessante e forte, com impacto na multidão; isto fornece uma indicação
preciosa quanto aos principais estímulos que movem os participantes nos concertos, pois todos eles são
potenciais consumidores.

O público é cada vez mais uma entidade nómada e abstracta; uma massa humana informe que muda
constantementeos seus gostos, face a uma diversidade da oferta musical que preenche, como se de um ruído
constante se tratasse, os seus ouvidos e ocupa a sua vida. A necessidade de se mudar permanentemente de
registo, através de canções sem ligação entre si, pode explicar algumas das alterações comportamentais que
levaram as pessoas a preferirem concertos em vez de gravações.

Num mundo repleto de solicitações egoístas, individualistas e egotistas, o concerto apresenta-se como
contraponto, um mal menor, mero local de encontro, apesar de se reconhecer a fugacidade e fragilidade dos
momentos, em termos de compromisso solidário e permanente.

O cruzamento de som e imagem, mediado por sofisticados dispositivos tecnológicos na conceção, produção,
registo sonoro que caracterizam os tempos atuais, evoluiu muito rapidamente nos últimos 30 anos. A
democratização desencadeada pelo fácil acesso a equipamentos fez as pessoas sentirem-se mais vivas, quase as
protagonistas de um espetáculo semi-público, julgando-se numa espécie de economia colaborativa cujo padrão
terá transcendido o interesse pelo lucro.A verdadeira mudança ainda não se verificou e não se sabe se ela vai
acontecer.

As pessoas passarão a ser as autoras de imagem e texto (mais imagens que texto) e a sua divulgação será por sua
conta e risco. A blogosfera é uma tentativa de salvar a morte anunciada do livro e da palavra escrita face à força
da imagem. Esta diz muito pouco, no entanto as pessoas gostam dela; o sujeito está entregue a si mesmo,
responsável e protagonista de um amplo processode difusão, do tipo “do it yourself”, concebendo, realizando ou
arquivando imagens, gravações, palavras, textos, colocando-os a circular por entre nuvens do ciberespaço. Este
avanço consolidaráo poder da imagem, levando à extinção do CD e de outros suportes tecnológicos tradicionais.
A lógica consumidora que determina as estratégias comerciais da música, insistia na repetição da audição, no
hábito, na saturação. A ideia era extrair o maior rendimento do ato artístico no menor espaço de tempo. A
música possuía uma forte componente social e a cultura automobilística acompanhava o fenómeno. A música
chiclete que dantes dominava a rádio deu lugar ao rap, gangster e pesado.
A música atual sofre deste permanente estado de défice, uma falta que urge preencher depois de passado o efeito
provocado pela novidade. O tédio e a fuga ao aborrecimento, provocados pelo excesso de oferta sonora,
obrigaram a indústria a lançar constantemente no mercado todo o tipo de inutilidades, novidades musicais sem
critério artístico que apenas servem para alienar e anestesiar multidões.


A cultura do mundo digital é um campo extremamente desmaterializado que ampliou a visibilidade do vulgar e
do banal, acentuando o cliché, o lugar-comum, o fetiche, o trivial. A música circula a grande velocidade por toda
a parte e, para se remediar esta tirania do mau gosto, apela-se à pressa como meio de excitação; contudo, não é
com rapidez que se resolve o problema causado pelo marasmo da banalização musical.

Hoje, as pessoas confiam mais na pesquisa de mercado do que na opinião de especialistas. Tal mudança reflete-
se no desinteresse pelo jazz, que por sua vez se manifesta nos grandes meios de comunicação. As notícias sobre
festivais e concertos escasseiam, e as recensões discográficas diminuíram drasticamente. Atualmente, a falta de
qualidade estética e a popularidade assumem posições equivalentes; assim sendo, na opinião da maioria, o
álbum que vende mais cópias é, por definição, o melhor. Ocupar os ouvidos com mais coisas inúteis tornou-se
prática comum; tal situação não pode dar bons resultados; para existir e possuir o seu próprio espaço, a boa
música deve ser artisticamente justificada. Acrescente influência do mercado faz com que os sucessos sejam
construídos de forma interesseira e pouco honesta. Tudo passa rapidamente de moda e o tempo de sobrevivência
de qualquer música é diminuto. Inundar o campo sonoro com novos produtos faz parte de uma estratégia de
saturação e interferência no espaço da audição, uma tática que é seguida pelas grandes editoras de discos, que
diariamente lançam no mercado novas produções, tornando as anteriores obsoletas.

Hoje, a sociedade e a cultura estão orientadas para o consumo; as redes substituíram as estruturas e as pessoas
são cúmplices ou agentes participantes num jogo interminável de conexões e desconexões, agindo de maneira
impessoal e anónima, ligando-se e desligando-se entre si. Os velhos sentimentos de pertença, lealdade, e
compromisso deram lugar a uma realidade onde se aceitam todos os gostos sem interferências, afastados de
quaisquer padrões ou exigências de qualidade e rigor. As grandes marcas pressionam os músicos para fazerem
acordos genéricosque abrangem apenas a sua de atividade musical, convidando-os, através de grandes somas
adiantadas, a prescindir dos direitos de autor. Os músicos foram prejudicados neste negócio e, com o tempo,
foram aprendendo várias lições. Começaram a prestar mais atenção aos rendimentos gerados a posteriori, pela
valorização dos direitos autorais, devido à multiplicação e diversidade dos dispositivos de comunicação que usam
intensamente as canções na sua atividade. Com os erros passados, os músicos perceberam que os direitos podem
gerar no futuro receitas extraordinárias, razão pela qual estão agora mais renitentes em entregar de mão beijada
às grandes editoras essas potenciais mais-valias; argumentam, justificadamente, que a música criada lhes
pertence e, como tal, não vêm com bons olhos prescindir dos rendimentos indiretos da sua atividade criativa.
Esta situação desencadeou desentendimentos e grande tensão entre músicos e editoras; em resposta ao conflito,
muitos músicos criaram estrategicamente a sua própria marca de discos, negociando com os grandes empórios a
distribuição e comercialização da sua música.

O corpo humano deixou de precisar da força de um testemunho, tendo sido substituído por inúmeros jogos
artificiais de presença; as imagens não são produto do olhar, mas criações, aparentemente credíveis e verosímeis,
de realidades. O sistema digital produze abstratiza o som e as imagens montadas em série; o seu número em
catadupa oblitera imaginações, tendo efeitos nefastos para o pensamento, o qual se afunda numa passividade
indolente perante tanta velocidade e movimento. Com muito menos custo e desperdício de meios, as imagens
foram fabricadas para dar aos consumidores o que eles mais anseiam; estes vêm com os seus próprios olhos
acontecimentos que são já outros no instante em que ocorrem; no entanto, o olhar não é suficiente para observar,
informando muito pouco o espectador.

As imagens e os sons propagam-se e fundem-se facilmente em sucessivas, montagens, em ordenações
instantâneas, em sequências mecânicas, em disposições atraentes, nunca constituindo um todo sonoro seguro e
consolidado. O que surge na internet são meras sugestões de imagens e sons cindidos, parcelas de realidades
extraídas das suas origens, as quais nunca foram naturais; som e imagem formam produtos compósitos de índole
fragmentária e de larga intensidade visual, que em muitos casos secundarizam a música. Contudo, quando
refletimos no seu conteúdo nada encontramos de relevante. Com o som e a imagens fazem-se desdobramentos,
interações, misturas, junções, mixagens, montagens, sequências, sobreposições, e esta amálgama
imago/sonorizada engana facilmente.

No entanto, o sistema, com os seus diferentes e cada vez mais diversificados atores, tem de existir, e esta
evidência encerra em si um paradoxo. De um lado estão os artistas com a sua vocação, talento, criatividade,
imaginação; do outro, os gestores que defendem uma espécie de ordem contranatura e estranha aos interesses de
criação artística. Se os primeiros forem leais aos seus princípios e seguirem a sua intuição, vão ter de reprovar
obrigatoriamente o sistema, expondo a sua miséria e perversidade. Quem está por dentro da cultura e detém
cargos de gerência no interior da estrutura, possui uma propensão quase inata para desconfiar das atitudes e
discursos dos artistas; considera-os caóticos e insubordinados, sendo a imprevisibilidade dos seus atos um
sintoma da disfunção natural da arte. O artista também vive num paradoxo, pois tem de aceitar a presença de
indivíduos com quem está muitas vezes em desacordo; ambos os lados se guerreiam, mas na arte ninguém
sobrevive sozinho; quem gere constrói, planifica, pensa, organiza e trabalha tem de o fazer enquadrado na sua
estrutura sistémica. Assim, se o artista deseja manter-se ser fiel a uma vontade de querer mudar o mundo para
melhor, assumindo que isso seja possível, tem de ser visto, ouvido e notado, tanto quanto necessário, e para que
isso aconteça vê-se obrigado a viver neste paradoxo.

O mundo encontra-se em rápida mudança e, por vezes, o que parecia perdido para sempre realiza com sucesso
surpreendentes manobras de autorrecuperação e reinvenção, como se as coisas viessem do nada.

O ouvinte tende cada vez menos a procurar no mercado produtos musicais, enquanto objeto corpóreo, dando
preferência às experiências dos sentidos; na realidade virtual, as pessoas não contactam com coisas palpáveis,
mas com estímulos que mexem com a sua atenção, como por exemplo: o consumo cultural, a adoção de
diferentes estilos de vida, a busca de sofisticação, a exploração da sexualidade, a exponenciação da comunicação,
o império do audiovisual...

A ideia de alienação está relacionada com a burocracia, e a propriedade autoral corre o risco de tornar-se um
empecilho à liberdade. Se a burocracia for eficaz, isto é, se representar uma estrutura administrativa
tendencialmente não intrusiva, menos politizada e policiada e mais competente, todos beneficiarão; o problema é
que a internet é demasiado tentadora para que o ímpeto do lucro e do negócio sejam refreados; a internet pode
ser um boa oportunidade de retomar novas formas de democracia direta, tal como Hannah Arendt defendia, isto
é, ser um eco da vida antiga dos gregos na polis. O perigo está na impulsividade das reações perante a
constatação de que a internet enveredou por lógicas de poder assentes em procedimentos burocráticos; estes,em
vez de resolver problemas, reproduzem-nos, aumentando-os; neste caso a burocracia passa a confrontar o
indivíduo, limitando-o, e, quando tal acontece, dá-se um fenómeno de inversão; toda a proibição cria de forma
legítima, um excedente de gozo, provocado pela transgressão. As tarefas e deveres protocolados pelos interesses
do negócio e do lucro não têm base moral ou ética para se afirmarem; o não cumprimento de objetivos legais,
oficiais, políticos e sociais constituiu uma espécie de denúncia do circuito autorreprodutivo do movimento
burocrático; a burocracia enredou-se na internet, convidando a todos os tipos de manifestações sabotadoras; os
espíritos aventureiros, e daqueles que desejam discórdia, são convocados a agir; nalguns casos o radicalismo dos
desvios diverge para formas extremas de terrorismo, perversão, negócios ilícitos...

A música na internet é um fenómeno recente, e as suas consequências permanecem ainda desconhecidas. Com o
aumento do número de indivíduos a operar em rede, revela-se uma espécie de inteligência coletiva, uma
tendência invisível cuja abrangência e efeitos são difíceis de prever. A música sobrevive agora numa estrutura
reticular, mais horizontal do que vertical, sem hierarquia definida pelo cânone, desencadeando ideias que se
afastam ou se fundem, combinando-se entre si; o que daqui resulta são novas extensões do gosto e da
sensibilidade, configurações da vontade que se estabelecem em toda à parte. Poderemos qualificar estas
manifestações como um fenómeno de moda estética, que se revelas nas tendências atuais dos mais jovens
(piercings, tatuagens, brincos, cabelo, roupa...); no entanto, há um lado negro nisto tudo, porque a criação
artística é desviada dos seus significados supremos para se envolver em atividades comerciais que influenciam o
quotidiano. A facilidade de acesso a produção artística, a magnitude da rede, os países com as suas diferentes
legislações, os modelos de controlo em mãos estatais ou privadas, as politicas mais ou menos liberais ou
autoritárias, permitiram que operadores menos escrupulosos conseguissem tirar partido da vastidão e
insondabilidade do meio.

Em nome da sua visibilidade e capacidade de sobrevivência, a obra sujeitou-se às lógicas do mercado, pensando
que por essa via conseguia destacar-se dos restantes ofícios; acreditou, que com a elaboração de discursos
empolgantes e complexos, se diferenciava das restantes dimensões do mundo, justificando assim a sua existência.
Por causa desta tendência algo especulativa e meramente circunstancial, nestes últimos anos tem vindo a formar-
se uma retórica enfadonha de factos e argumentos que nem a ironia, o sarcasmo, a sátira, o escárnio, o riso, o
lúdico ou a autocrítica conseguem disfarçar. Hoje, o riso e os direitos humanos, combinados no movimento
incessante dos jogos de mercado, produzem obras híbridas, um misto de beleza e valor fiduciário, constituindo
ambos as duas faces da mesma moeda. De um lado está o mercado, que precisa de persuadir e convencer para
vender e negociar com sucesso, com os artistas a deixarem-se iludir pelo espectro do dinheiro, isto é, de vida fácil,
onde se negligenciam critérios e rigores na autenticidade; do outro estão os discursos bem-humorados, a
capacidade do artista rir de si mesmo e dos outros, como manifestação de coragem, bem como os direitos
humanos, acompanhados da sua enorme carga histórica.

Ninguém se interessa por aprender e saber alguma coisa, pois todos são assoberbados com imensos afazeres e
compromissos; a maior parte das pessoas está confinada a um território de onde não pode emigrar; a compressão
espaço/tempo que caracteriza a globalização dispensa ligações e pactos duradouros entre indivíduos, pois nada
pode ser garantido a médio ou longo prazo. Esta insegurança faz com que os sujeitos desistam de procurar o seu
espaço liberdade, o qual, sendo construído através do outro, sofre as consequências de um mundo cheio de
pobres e de gente sem direitos.
A imaginação, estímulo fundamental ao serviço da criação artística, é constantemente violentada por uma
avalanche de pequenos nadas; atualmente proliferam eventos, factos menores, coisas diárias sem importância
que ocupam a totalidade da vida; o entretenimento e a diversão ajudam a descomprimir os espíritos escravizados
pelo stress, pelas excessivas horas de trabalho, pelas cotas de produtividade, pelas metas de desenvolvimento,
tudo isso para poderem escapar por uns breves instantes a uma imobilidade claustrofóbica que os cansa e
deprime.

Todos os atos têm consequências e quem vai contra os acontecimentos dificilmente aguenta os seus efeitos. Ser-se
autêntico implica transparência; o artista tem de recusar expor-se ao poder dos meios de comunicação social,
que funcionam como meros promotores de obediência; só desta forma a obra resistirá pela verdade aos véus,
cortinas de fumo, nevoeiro, opacidade dos tabloides informativos. Os jogos mediáticos interpõem-se entre a arte
e o observador, confundindo-o e dificultando leituras.

No contexto de realidades complexas e em grande alteração, os aperfeiçoamentos técnicos e os dispositivos de
divulgação substituem-se mutuamente; numa década muitas coisas acontecem rapidamente, evoluindo além de
todas as expectativas. O tempo necessário para ouvir uma música, visualizar um vídeo ou ver um filme ou jogar
um jogo é cada vez mais curto; tudo se faz de maneira mais célere, bastam alguns minutos para se ver um vídeo,
para se escutar uma música, para se conhecer alguma coisa. Porém, fazer o download de um ficheiro é
atualmente uma prática quase obsoleta, pois o nível de sofisticação tecnológica deslocou a produção musical
para uma nuvem onde tudo existe; o tempo de baixar um álbum foi ultrapassado pela duração da música
gravada. Há, assim, em cada processo de divulgação um melhoramento que suscita no consumidor um
entusiasmo quase revolucionário;o contacto com o abstrato e o impessoal das máquinas inteligentes gere o prazer
de se sentir uma competência marginal e independente, que depois se expande ao sistema capitalista; este tenta
integrar no mercado todas as operações online, procurando a satisfação dos utilizadores. Alcançar um grau de
eficácia multiplicadora e imparável que aja de modo astuto e eficaz é o grande objetivo de qualquer negócio
atual; os utilizadores antigamente eram poucos e estavam organizados em clubes fechados, formando nichos de
especialistas que se comunicavam em salas de chat; agora usa-se todo o tipo de dispositivos computorizados,
desde os telemóveis às outras formas de comunicação de fácil deteção; a tecnologia evolui rapidamente e quanto
maior é o número de utilizadores online, mais rápida é a velocidade de processar informação.

A falta de conhecimento sobre o futuro da música resumia-se à impossibilidade de prever, com precisão e em
termos tecnológicos, qual iria ser o passo seguinte. Não se sabe se a música online continuará a ser paga ou não,
ou se os novos ventos da tecnologia levarão a produção musical para a sua disseminação universal, acessível e
gratuita. Neste momento não é possível prever com exatidão os acontecimentos futuros, nem saber em que
termos os atuais vão evoluir. Face a esta incerteza, talvez seja razoável admitir que a tecnologia conduzirá o
negócio da música para um contexto completamente diferente do atual. Qual? Não se sabe.

Num século onde aconteceu tanta coisa de imprevista na música, a indústria conseguiu, com mais ou menos
dificuldades, sobreviver e manter um razoável domínio sobre a sua comercialização. No passado, escreveu-se
abundantemente sobre a evolução da música popular e sobre a forma como esta evoluiu e as marcas controlaram
o processo mercantilista.

O mundo escusa-se a pensar sobre as consequências éticas dos atos, vendendo prazeres imediatos de uma crise
que submete e disciplina. Sem pensamento, ético desvalorizam-se alternativas e substituem-se valorações mais
humanistas por meio de meros consensos legalistas; o mais importante é manter a máquina capitalista a
funcionar. Hoje, tudo é bem consumível, logo tudo é descartável.
É preocupante a ligeireza dos atos e os seus níveis de egoísmo e destruição; a devastação causada por tanto
egocentrismo e individualismo não está a ser compensada por igual capacidade de agir solidária e coletivamente.
Num ambiente em acelerada desagregação e dispersão, ninguém é responsável; os interesses movem-se sem nexo,
apressadamente, descartando todas as boas intenções; os movimentos dos indivíduos são cada vez mais esquivos,
insolúveis e oportunistas, dirigidos para o prazer imediato; a maioria das pessoas age como se não houvesse
amanhã. O consumo e a moda impõem os seus modelos de conduta, formas de estar acríticas, atitudes
incongruentes, poses inúteis, estilos mundanos e fotogénicos, modos pirosos, ajuntamentos circunstanciais,
festas e noitadas, tudo na vertigem daprocurado prazer e dasatisfação de desejos imediatos, baseados em falsas
necessidades. Nada de relevante incentiva a lentidão, a reflexão, os projetos de vida, deixando que o tempo de
contemplação e de pensamento se enraízem; faltam vontades fortes e suficientes, autónomas e independentes
para que, a partir da sua força, se imagine e se crie livremente.

É inegável que hoje os jogos da imaginação no contexto musical estão muito mais sofisticados e tecnológicos.

A verdadeira obra de arte é uma oferta; algo que as pessoas esperam para mudar a sua vida; o artista dá-a ao
mundo sem restrições. Neste sentido, persiste no seu interior uma esperança, uma energia suficientemente forte
capaz de desencadear respostas e reações. Toda a oferta genuína exige sacrifício, tanto por parte do doador como
de quem a recebe; a consciência dessesacrifício apenas se revela posteriormente, quase sempre depois de ter
passado muito tempo, sendo tarde demais para se recuperar o instante do seu primeiro impacto. Assim, a relação
com a arte pode gerar um sentimento difuso de bem-estar no momento em que as consciências refletem sobre as
pequenas etapas de um trajeto percorrido, depois de muitas dificuldades ultrapassadas.


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