AUTOR: IVO MARTINS 
EDIÇÃO: Revista Op. #22     DATA: Julho de 2007 





A obra de Slavoj Zizek, umas das mais curiosas personagens do pensamento contemporâneo, por revelar, entre
outras coisas, como a desilusão e a catástrofe se encontram tão próximas de se realizarem na sua tarefa profética.

Se somos capazes de antever o caos, de prever essa destruição que um dia nos vai aparecer e que de certeza nos
irá fazer sentir os seus efeitos apocalípticos, antecipados na nefasta presença de um enorme vazio civilizacional,
por outro lado, não conseguimos ter a mais pequena possibilidade de alterar o rumo deste caminhar para um
abismo, que reiteradamente confirmamos nos nossos actos diários.

Ter a consciência dos limites dos actos que podemos empreender e dos mecanismos de retirada a utilizar para
tornar as coisas mais ou menos suportáveis, - conscientes de que não se sabe tudo, percebendo a relatividade e os
défices na aplicação efectiva dos nossos projectos e das acções destruidoras que optamos por praticar em
situações de conflito, - traz consigo um drama individual insolúvel.

Esta ideia projecta-se no imenso colectivo que somos e que nunca foi capaz de evitar a propensão para o seu
próprio colapso, realizando a inversão do seu mal-estar global, a pairar entre o amargo de boca e o simples
desapontamento; o pânico que se alimenta de um medo persistente e natural aloja-se nas nossas frágeis
esperanças como um vírus.

O que impressiona na escrita de Slavoj Zizek é a tomada de consciência de que não há mais espaço de manobra
reflexiva para a construção critica do mundo que construímos e que não nos permite concluir que terminou o
tempo das justificações e do entendimento ontológico do nosso ser, porque deixamos de ter um destino comum.
O mundo construído pelo o Homem deve ser alterado, mas esta fantástica estruturação é de facto demasiado
grandiosa, complexa e múltipla, para que possa ser travada na amplitude dos movimentos de análise ou dos
avanços tecnológicos.

A quantidade e os conteúdos das questões colocadas nestes livros impõem-se pela sua extensão e circunstância. A
quantidade de histórias neles contidas e a impossibilidade de fazermos um uso apropriado destas experiências
para impedir o fluir dos acontecimentos, nas formas de progresso e desenvolvimento existentes, confirma a
existência de uma mobilidade insondável que nos arrasta para um limite indomável e contra o qual tornamo-nos
impotentes.

A utilização pragmática de coisas tão simples, referidas nas narrativas e noutras histórias que nos são
transmitidas através de diversos tipos de suporte, tais como filmes, arte, literatura, autores, filósofos, história…
parece que quer tornar palpável e aberto o pensamento, transformando as análises mais elaboradas em assuntos
quotidianos, fazendo chegar, a todas as pessoas, ideias em linguagem acessível, outrora reservada só a quem era
sábio. Uma respiração aberta sobre uma visão de violência futurista que nos persegue desde o tempo de Adão e
Eva como se fosse o nosso próprio fantasma em culpa formada.

A desmistificação do saber serve como material de propagação desse mesmo saber. Ao colocarem-se dúvidas e ao
explicarem-se medos, estimulados por um alargado processo cruzado de conhecimento e informações sobre o
presente vivido, os livros publicados constituem momentos que nos podem livrar do estado de asfixiamento da
linguagem, onde o pensamento erudito se afoga em processos complicados de estruturação de argumentos e as
formas de pensar ligeiras matam a verdade dos seus propósitos.

A política é um assunto recorrente e que abrange todo o conteúdo dos trabalhos agora editados. Percebemos
como são frágeis os nossos processos democráticos e como são profundamente injustos os seus resultados.
A moralidade exige um conjunto de situações que a favoreçam e há uma espécie de “sorte moral” que a torna
passível de ser praticada nos contextos das nossas sociedades actuais. Tudo se revela frouxo e muito pouco
consistente, passando uma ideia de auto-desilusão, sobre um sistema que cada vez mais se estrutura para
controlar de uma forma cega e que aprisiona os seus cidadãos no meio de processos de reconhecimento
insistente, dificultando as movimentações e as ideias que apareçam em sentido contrário.

Fala-se de muitas coisas com a serenidade de quem conhece a natureza humana já tantas vezes testada e posta à
prova durante a longa história do homem. Sente-se que tudo se está a repetir de um modo perverso e que estamos
sempre a cair nos mesmos erros e equívocos, sem termos uma noção clara das energias e dos dispêndios que tais
incapacidades nos causam. Há um lado grosseiramente interesseiro, uma incapacidade de sair do curto
horizonte de vistas formado pelo o que nos interessa no imediato, essa emersão numa vida estúpida e pobre que
retira ao homem a possibilidade de perceber certos factores essências para o seu crescimento interior e que
poderão pôr em causa a sua sobrevivência futura. As formas encontradas nos enredos são iguais, apenas mudam
os figurantes que continuam a representar esse momento de alienação existencial que vai acontecendo durante
todos os momentos de conflitos e grandes necessidades que exigem do homem decisões urgentes. As tomadas de
posição redundam em violência que passa da sua impossibilidade possível para a realidade do possível
impossível.

Percepcionamos, assim uma filosofia da catástrofe, uma ética de que faz parte a instrumentação totalitária dos
costumes com as pessoas a sofrerem mais desolações e mais agruras, violências que matam sucessivamente o seu
ser maltratado.
A religião e o cristianismo, afastado do seu tronco comum monoteísta, são abordados de uma forma inteligente e
recuperada. Parece que se volta a reflectir sobre algumas das ideias acerca do “Grande Outro” transcendente que
a filosofia durante tantos séculos se apressou a destruir. Deus aparece aqui estando num tempo onde tudo volta a
ser parte de uma longa história de fracassos e de insucessos. As formas de brutalização sobre as pessoas por um
poder imperial e vitimado adquire agora estranhas forças morais, com os Estados a não conseguirem melhorar os
seus níveis de administração igualitária.
A sexualidade cruza-se com imensas temáticas que reforçam uma ideia de homem incompleto, incapaz de
conhecer o fundo da sua própria natureza, mas apesar de tudo actuante e agressivo no meio de uma natureza que
foi aceitando, ate agora, todas estas actuações de um modo passivo.

A filosofia é o elemento que consolida todas as partes das obras agora publicadas. A biografia do seu autor e de
todos os autores não ajuda muito nas tarefas de tentar explicar a grandeza e a liberdade de um pensamento que
se revela fundamental para o momento que atravessamos. Slavoj Zizek é um homem de uma extraordinária
sagacidade que talvez por ter nascido e crescido numa sociedade muito fechada, foi capaz de imaginar saídas e
soluções para o emparedamento cultural a que foi sujeito. As sociedades capitalistas caminham rapidamente
para esta espécie de homem fantasma, um homem a viver atrás de muros, totalmente desviado da essência do seu
destino e terrivelmente exposto aos medos e aos pânicos dos brinquedos que se afadigou a produzir.