TEXTOS

Bob Brookmeyer

Se pretendêssemos estabelecer um conjunto de ideias que passassem a manifestar-se como uma procura de
negação sobre a realidade, situada na postura deliberada e prospectiva dos momentos mais preponderantes da
modernidade, encontraríamos no jazz algumas respostas que, não representando nada, seriam uma réplica
contra a tendência de aceleração global que nos submete. Esta (re)volta parodiada sobre o movimento infinito
para lado algum, sob a velocidade que sustenta a criação artística presente, incorpora-se no espaço instantâneo
de muitas projecções. Da mesma forma, o conjunto de acontecimentos quotidianos que reagem como se
estivessem à procura de, por todos os meios de escape, novos modelos de fuga, fazem prescrever e terminar o
prazo de validade dos conteúdos, caso estes não sejam descritos ou parafraseados como um ritual de morte
precoce. Os significados reagem àquilo que surge sob a forma avassaladora de uma inversão, na tendência para
interpretar os aumentos sucessivos e constantes de aceleração que na música passam a actos de grandeza
efémera, nada mais fazendo senão glorificar o estado supremo de intensa mobilização planetária. O centro de
gravidade desta (re)volta fica retido sobre o que formos capazes de mostrar, de seleccionar e de chamar a atenção
no meio da enorme torrente de imagens diárias que se aglomeram e se acumulam, à luz das condições de
estimulação dos sentidos e das capacidades de assimilação. Interessa, neste pressuposto, arrancar das superfícies
saturadas de visualidade forças de sentido contrário, alojadas nos interstícios de pequenos momentos - espaços
isolados de imobilidade onde é possível sentir o ritmo do sobreviver. Detectar o caminho contra este poder de
atracção centrípeta que passará a estar contido no espaço que sentimos necessário à invenção, para podermos
estabelecer diálogos amplos de interacção com as artes, será o que precisamos de consolidar como uma nova
proposta visionária. A atitude da posição contemplativa, astutamente situada em momentos de quietude e de
afastamento da realidade activista, voluntariosa e persuasiva, talvez seja ainda capaz de condensar o
impedimento de situações irrevogáveis pró-activas, onde o tédio prolifera na letargia que se exerce sobre a
realidade portadora de imposições cinéticas - um movimento obrigatório e uniformizado que remete para um
estado geral de depressão amovível, o qual não permite ver os movimentos rápidos, além das aparências. Quem
só se deixa empurrar pela tendência social, caminha sobre uma vasta incorporação de matérias inertes e
decompostas, onde os sentimentos entre desejos e prazeres não podem perceber os resultados, nem as perdas
graduais de agudeza das sensibilidades. O estado de espírito daí resultante assenta na procriação incessante dos
grupos integradores de interesses, dificultando e aniquilando o processo de superação individual que abre feridas
nas condensações compulsivas dos actos circunscritos em momentos de sublime imitação generalizada, fazendo
parte integrante da vida activa actual. Esta realidade sugere uma comodidade e uma passividade demitidas na
alienação reconfortante entre máquinas e audiovisual, quando a hemorragia das vontades se dispersa
largamente por todos os lugares, nos quais se representa o simulacro de um novo contrato social integrador,
através da proposta ridícula e burocrática da vida organizada, segundo o processo comum e global que mais não
é do que o alargado sistema de (des)qualificação do indivíduo. As organizações apoiam-se nas mesmas pessoas
que, numa atitude de extrema obediência, mais ou menos ignorantes, participam no chamado sentir colectivo e
na sua rarefacção e refracção social. Tudo constitui um ponto-chave no seu vazio pessoal, onde não são
permitidos desenvolvimentos imaginosos. Só através da preparação de uma individualidade serena e útil é que se
podem realizar importantes experiências sensoriais de assimilação. Quando se consegue impedir novos
perecimentos sob a torrente de imperativos, de solicitações sobre todos os comportamentos exigíveis, evita-se o
afogamento no excessivo processo de produção, onde cada um aparece como portador das actuações mais
correctas e concretas. Para que nos possamos manter na permanência de uma actualidade sempre incipiente,
preparando no irrisório dos pequenos prazeres mundanos, representados pelos elementos mais situacionistas do
viver, é necessário que aquilo que mais nos humilha e que mais nos tolhe seja gerido sem medos. O pânico está
focalizado nos actos de procura de uma individualização que aparece e não se alcança como tarefa inatingível,
convidando ao amortecimento das nossas faculdades críticas e permitindo que as enormes cargas de aceitação
implícita predominem no alargado consenso de ideias sem soluções de retorno. A obra de Bob Brookmeyer é um
profundo ensinamento sobre como proceder neste estado de orfandade cultural, criado pela intensidade de uma
moda que age de forma grotesca sobre o nosso imaginário, na ignorância e nas generalizações. O didáctico é uma
actividade de desfiguração, apesar de a face da sombra conseguir manter intacta a aparente beleza do seu sorriso
imobilizado.


Jason Moran

O que se pretende assumir como força de uma entidade soberana, totalitária, expansiva e planetária, encontra-se
no facto de também nós podermos estar aprisionados por dentro dos discursos mais anti. Estes movimentos de
aparente sentido contrário reduzem a uma espécie de vazio em alta velocidade aquilo que está sempre a
reaparecer como manifestação do inconsequente, o mesmo estado de apatia e de demissão em que se encontram
as sociedades actuais. O seu conteúdo assume-se num conjunto de ideias terminais que fazem parte da afirmação
seminal do instituído. A retórica refeita à custa de uma velha ideia de renovação sobre as crises do mundo impõe,
a quem sendo incapaz de se redescrever e de actuar sobre si próprio, limitando-se a fazer simulações sociais e
colectivas, um ritual de tetraplegia, resultante da rasura permanente do seu problema básico, fomentado pela
eliminação dos que são diferentes - uma perda de diversidade que detém aquilo que não propicia e faz procriar
novos delegados do nosso medo. Ao contratarem zeladores de opinião que tomam parte nas sombras do
quotidiano, as pessoas agem na conformação e no aborrecimento que está distribuído para consumo imediato,
exortando quantidades impressionantes de indivíduos a fomentarem a sua pequena subsistência, nas coisas mais
elementares. Estes novos representantes da cultura mediana glorificam-se nas personagens-fetiche dos heróis
contemporâneos e emergem dos portadores destes momentos de tensão egocêntrica. Associado à ideia de
progresso e de bem-estar surge um ser vazio que exala no meio de uma atmosfera terrivelmente atacada por
aqueles que melhor sabem e promovem o disparate, as retóricas do discurso organizado no espectro
fantasmagórico de um desenvolvimento global. São os pontos extremos e renitentes deste impossível estado
limite que o excesso de palavras tenta esconder. Quando a nossa forma de actuar que, pelo facto de começar a ser
demasiado patética, não exulta a multidão ocupada a desfazer-se do desejo mesquinho de satisfazer as
necessidades intelectuais na concretização dos seus devaneios infantis e prazeres mundanos, elegem-se os
verdadeiros momentos do devir, em que nada mais nos resta senão provocar alterações. Na apatia que se
congrega como um amplo conjunto de atitudes automáticas e normativas, constitui-se uma subcategoria
expressa por palavras vãs que os líderes, na acumulação de uma potência mínima contida em todos os discursos
contrários, sabem perfeitamente exprimir.
A linguagem diverte-se e serve para iludir factos que mais não fazem do que pretender elevar aos céus uma ideia
de vida como imagem apologética para o tempo presente. No trânsito rápido das palavras, na torrente
vertiginosa das metáforas, no automatismo da mediania e nas paisagens medíocres do saber, encontramos
elementos que compõem frases de uma plasticidade retórica, acompanhadas de práticas e costumes informes
para não se criarem opiniões críticas. Quem se achar mais desinteressado destas questões e tenha facilidade de se
abstrair dos êxtases e dos espantos, pode deixar-se arrastar para a grande atitude de fixação no anti-sonho,
sendo esse mesmo o fundo ambicioso de todos os discursos. A pessoa não se pode encontrar na expressão
retocada deste sujeito tipo, ou homem liberal porque é a personagem que se revê nas implosões das ideologias
produzidas no século passado, sobrevivendo numa ilha abandonada rodeada de redenções, cujos desertos vão
persistindo na imensidão de actores inventados a partir de insignificantes narrativas acumuladas nas nossas
histórias. Aquele que se vier a tornar na entidade máxima e respeitável de uma sociedade destemperada e
descarnada de sentimentos, poderá ser o representante dessas organizações tentaculares que se apresentam
como se fossem a mais perfeita elaboração do espírito colectivo e racional. Quando se persiste em alcançar novas
esferas de relacionamento e de esperança, construindo estruturas sociais que permeiam e redobram as tarefas de
salvação, esquece-se de que o mais importante são as qualidades superiores do empenhamento, da energia, da
vitalidade e da expressividade encarnadas na arte construída pelo homem. Deste modo, escolhe-se a forma
solitária de apresentação, no caminho que remete para a necessidade de se estabelecer um percurso individual de
realização. A música de Jason Moran tem essa espantosa capacidade de estar ligada ao mundo real, ao
conhecimento, aos valores e às experiências, podendo libertar-nos de todos os afazeres relativos à necessidade de
estabelecermos uma correspondência entre a representação artística e vida aconselha a música a não se deixar
seduzir, sem a cumplicidade do sujeito disposto a viver ele próprio também essa experiência.


Ralph Alessi Quartet (com Jason Moran)

Os homens são dirigentes incapazes resultando daqui o facto de nada mais poderem fazer do que facilitar
modelos de obediência e de humilhação civil que não pretendem zelar pela diferenciação do individual, nem, em
particular, daquela característica que diz respeito à liberdade do indivíduo. No contexto de uma moda soberana
que protege e que recruta permanentemente novos escravos, fazemos o melhor que sabemos. Quando se activam
mecanismos de exploração, mesmo os que se divertem nos sectores mais anti das nossas sociedades, proliferam
em sensibilidades amorfas seres híbridos e reconstituídos reconhecíveis no saber viver. Um modelo passível de se
chamar paradigma para um gosto uniforme que se diz público. O regime de desconfiança está instalado,
referindo que quem comanda é sempre o liderado, no que poderá ser aquilo que melhor sintetiza este pequeno
mundo de fluxos e refluxos. A sombra produzida pelo estado de submissão continuada e reduzida àquilo que
existe como objecto de inveja, nada exclui desta estranha possibilidade de contraditório, estabelecido entre todo
o desejo eleito e a sua reconstituição em novo desejo. Através de uma relação absoluta e fausta de poder e
propriedade, essa relação de proximidade sobre o que não se tem, revela ser, na realidade, a manifestação
popular de desejo, numa permanência da crença potente e ridícula que une o verdadeiro proprietário ao seu
objecto de estimação. As coisas que redefinem a propriedade sobre a protecção de um direito universal de posse,
no interior de um mundo em absoluta decadência, transmitem a distância do espaço que se situa entre o objecto
e a catástrofe, no acontecimento que lhe vai pôr termo. Existe uma perda na impossibilidade de mensurar as suas
dimensões. A moda surge como alargado processo de imitação, o meio facilitador de reencontros em processos
uniformes de medida que fornecem todos os antídotos para a resolução das contradições e das banalidades
necessárias ao adiamento da mudança, na vertigem do seu desencadear apocalíptico. Por que motivo se impede a
proliferação de uma agressividade invejosa a níveis incontroláveis, por que são estas sucessivas explosões sociais
de energia que se acumulam e proliferam de mal em mal? O resquício deste acto sempre larvar de que é feita a
agressividade compulsiva dos suicidas, confunde-se com os pensamentos de todos os que não pensam nestas
coisas, criando-se uma matéria pegajosa e renitente que, ao ser incorporada nos conteúdos das acções mais
inesperadas do nosso quotidiano, encontra nas palavras as estruturas de uma presença, de uma interacção e de
uma aceitação diárias que se refazem permanentemente por dentro deste ideário modernista de mobilização
intensiva. O movimento extenso da expansão das esperanças concretiza-se em mais consumo e mais progresso.
As imagens apontam para simulacros que nos reaparecem constantemente como personagens a divagar numa
aurora radioactiva, extenuadas nas simplificações, nas composturas dinâmicas residuais de afectos cuja falta de
criticismo permite rever como um momento já destruído. A passagem do tempo por muitos impérios e por muita
dominação social do bem-estar, nunca soube interpretar as suas ruínas, as energias salvadoras passadas, as
esperanças desde sempre retomadas e anunciadas por homens que não nos podem ajudar a perceber os
elementos presentes e essenciais à tomada de consciência. O que é mais razoável poderia propiciar uma ruptura
com esse passado permanentemente adiado que devia deixar de fazer projectos para uma humanidade
envelhecida e demasiado civilizada, à beira de um ataque paralisador e, pelo contrário, dispõe-se sempre a
reviver novas histórias como se tudo se tivesse passado sem sofrimento, nem acontecimento. O que não nos
autoriza a tomada de um impedimento extremo na concretização final da mudança, situa-se na possibilidade de
afastamento sobre o que é fundamental - o estado de fascínio absoluto do limite, do fim e do ir. Nada irá
prevalecer sobre este sentimento de aniquilação decorrente entre a nossa abundância material e a aglomeração
de objectos. A vida implica muitas mudanças na formulação das suas elaborações de sentido e nas representações
que nada interpretam, parecendo que existe nesta vontade de entendimento total uma insuficiente e incapaz
metodologia de salvar. O fim que se reorganiza sobre o seu princípio e sobre o seu limite faz parte do imenso
dilúvio que a novidade nos impõe, como momento que passa rapidamente no caso efémero que lhe deu origem.
Tudo corre desenfreadamente na direcção do risco compulsivo de cada momento, arrasando as passagens nesse
mar que se refaz, no nascimento de mais acontecimentos do nosso quotidiano. Na música de Ralph Alessi existe
uma estranha alegoria, desde logo explícita no germe desfeito que inclui a desvirtuação da própria morte. Fica,
como único atractivo que possuímos para nos mantermos vivos no meio de todas estas sensações de fim, a
possibilidade de nos convencermos de que, a todo o custo, um dia irá aparecer exposta uma necessidade urgente
de actualidade sobre o que se passou à nossa volta. Quando decidirmos apagar tudo que se revela, acrescentando
um novo aditivo da totalidade necessária à glorificação do consumo das coisas mais banais, estaremos, desde
logo, predestinados a desaparecer definitivamente. A seguir, fica-nos-á uma derradeira semântica de coisas
irrisórias e de crises apocalípticas, expressas numa possibilidade de ruptura, destruída por vândalos que se terão
apoiado no movimento incessante das imitações e que terão feito do nosso modernismo o seu paiol particular de
explosivos - as dissuasões que os velhos e milenares acontecimentos de acumulação e de poder fazem lembrar - os
grandiosos falhanços, os verdadeiros fiascos da nossa história.


Dave Liebman

Há uma analogia na história das heresias. Os fanáticos frequentemente reinventam as doutrinas de seitas
anteriores sem se aperceberem disso e muitos dos movimentos que apareceram na arte tiveram uma tendência
para partilhar um estado de anti-intelectualismo, adoptando pronunciamentos e apelos muito fortes sobre o
sentido absoluto da ideia inicial de apocalipse. Cultivaram-se as possibilidades criativas dos homens e viveu-se o
tempo caótico sem que tivessem existido preocupações com a continuidade nem com o passado, surgindo então
muitos momentos de intenso fascínio. Em todas as grandes obras existe um delírio que nos aparece de forma
transversal, formado pelas particularidades reflectidas nas linguagens utilizadas que se vão sabendo, sobre o
sentido dessa novidade que cada uma integra. A novidade é sempre uma realidade que afecta todo o passado
porque nada pode ser novo sozinho, ficando, neste sentido, situado naquilo que parece estar sujeito a um prazo -
um período de tempo capaz de manter a tensão atractiva desse interesse. A sensação de surpresa, no contexto
menos durável de todos os sentimentos e de todas as respostas estéticas, compõe a modernidade e faz com que se
esteja sempre a descobrir muitas categorias nas suas possibilidades formais, já não podendo originar mais
reacções. Isto não sugere que a criatividade esteja totalmente vedada à possibilidade de se fazer alguma coisa
inebriante porque haverá sempre redescobertas, reavaliações frutuosas que podem voltar a ser analisadas como
renovadas sugestões e reutilizações para esse passado presente. Esta verificação explica as diferenças entre a
música de Schoenberg e a música-à-toa. No entanto, quando se sente que não temos, depois de tantas
experiências fracassadas, uma forma única de olhar para o mundo, parece que persiste um sentimento terminal
sobre uma perda total de sentido cujo absurdo não permite entender o que está à nossa volta. Deste momento
desprende-se o perfil de uma atitude de negação, uma aurora de apocalíptica que já faz parte da ordem do
moderno, neste tempo que nos acompanha, desde sempre, e que nos parece demasiado próximo. Isto responde à
sua própria vitalidade naquilo que passa através dos factos narrados - uma torrente de histórias que se
transformam em verdade para repor a ordem nos nossos medos e nos nossos desejos. Umas vezes ironizado,
outras vezes qualificado de cepticismo e outras tantas vezes negado até ao absoluto mais extremo, o objecto
artístico torna-se um elemento permanente de aglomeração de ideias, um apego a uma metafísica que se sublima
nas artes e se aprofunda na crise e sobre a crise, agindo de fracasso em fracasso, nos apelos radicais negativos
pós-modernos. Nunca ninguém quis abolir nada de relevante a não ser o momento negado, como uma
necessidade de manter viva a atenção.
O que temos diante de nós não é o fim da arte, mas uma transformação das suas funções. Actualmente, aquilo
que os artistas e os músicos vão fazendo é mais apurar a técnica de representar a realidade sem qualquer
conotação religiosa, através de um meio de instrumentalizar a consciência, de forma a organizar novos modelos
de sensibilidade. Eles deixaram de estar remetidos às práticas que tradicionalmente lhes foram legadas e tiveram
de se tornar estetas da consciência, desafiando os meios, os materiais e os métodos. Caminharam para além dos
sons dos instrumentos, alteraram rotinas, fabricaram sons sintéticos e ruídos. A velocidade das sensações, assim
como as provas da assimilação e do entendimento, sujeitaram intensamente os contextos e estabeleceram um
novo período de cumulação criativa que fomentou uma sensibilidade, cuja produção de objectos em massa se
recriou numa desmesurada acessibilidade. As obras da actualidade, múltiplas em significados, adquirem um
carácter de personificação muito grande, quando comparadas com os empenhamentos do romantismo e as do
sentimentalismo do passado. O rigor da pesquisa que lhe está associado e as análises dos problemas que
pretendem abordar, tornam apenas numa ideia ou num conceito aquilo que o seu autor é como proprietário.
Quem explora intensamente a grande obra de arte sente a alteração da consciência e da sensibilidade, mudando
a forma de perceber o mundo, alimentando as ideias e os sentimentos específicos que cada um pode adquirir em
termos de educação e de modificação individual. O autor é simultaneamente proprietário, passando a exprimir o
protesto como recusa de estimação e compromisso, numa época em que não existe nada de aceitável e onde não
vale a pena arranjar argumentos. A torrente retórica generalizada e conformista, ordena-se de forma irrelevante
e revela-se na incapacidade miserável de viver o seu corpo, para viver e morrer nele. Por isso o desencanto é uma
pose sobejamente conhecida e muito em voga nos intelectuais contemporâneos cuja falta de vontade em
estabelecer diálogos purificados, foi substituída pela possibilidade de sentir fora da libertação da moralidade e
do didáctico. Concretizou-se o abandono definitivo de se aprovar e desaprovar tudo o que acontece. A chatice é
somente um nome que se dá a um certo tipo de frustração. As linguagens faladas pelas pessoas que pretendem
explicar a música e o processo criativo não escutam e são, na sua grande parte, uma manifestação evidente de
pobreza. O trabalho de Dave Liebman representa a arte de hoje enquanto recusa da acessibilidade e exigência de
um esforço para todos os que nela se envolvem, zelando pela sua compreensão. As generalidades e as
classificações conspurcam a natureza e uniformizam a cultura, introduzindo ruídos e contaminações.


Maria Schneider Orchestra

As pessoas vivem numa pequena parcela de espaço/tempo. Aquilo que pode influenciar os acontecimentos nesta
reduzida superfície relacional, fixa-se nas dificuldades de cooperação entre as identidades separadas pela
contingência da linguagem. A tentativa para desenvolver um “vocabulário final” exprime-se na marca do
discurso que se distingue e diferencia, neste processo rápido de alteração circunstancial em que evoluímos.
Quando percebemos os movimentos em volta das palavras, localizados entre uma ideia de aparência e outra de
realidade, surge aquilo que Wittgenstein referiu como os vocabulários que “são criações humanas, instrumentos
para a criação de outros artefactos humanos, tais como poemas, sociedades utópicas, teorias científicas e
gerações futuras”. A maneira como se concretizam estes produtos que estão para a arte em geral como tarefas de
descobrir, exulta a criação de um vocabulário no qual se exprimem as verdades e as mentiras, nunca estando
destinado a convergir. Neste sentido, a diversidade revela-se através das inúmeras frases dispersas, aplicadas na
procura de uma forma de expressão distinta daquela que correntemente se usa. Uma nova realidade pode ficar
dominada por metáforas, onde o fazer e a novidade são uma conquista. Contudo, aquilo que mais sobressai nesta
conjuntura é a luta e a vitória de uma investigação diligente, conseguida na formulação de uma rede de
significados que fornecem contextos e apuramentos de expressão, clarificando relações e contrastes entre todos
os que não se falam. A representação de uma coisa pode aparecer de um modo correcto e silencioso, passando
pelo facto de cada pessoa saber adoptar e modificar todas as incorporações dos autores que observou, leu e
escutou. Esta actividade da chamada cultura torna-se a luta contra o receio da extinção do saber - uma tentativa
de se conseguir fazer prevalecer a idiossincrasia no seu sentido individual, nessa visão acumulada e confusa que
vai ficando límpida, através da grandiosa emoção que resolve as questões colocadas pelo medo de não se
conseguir alcançar alguma coisa. Quem passar uma vida a tentar responder às questões de saber o que é, está
certamente a concretizar uma possível e importante forma de esconjurar o receio da extinção de todas as
respostas. Ao serem revistas as descrições que recebemos na variedade dos objectos a que acedemos,
transparecem acontecimentos que incitam a utilização de palavras em novas acepções e que nos impedem de
formular novas perguntas com palavras antigas. Aqui reside a identificação do nosso carácter distintivo. O jogo
dos vocabulários e o seu confronto, levam a uma exploração de outras possibilidades de análise, em dimensões
cada vez mais extra-planetárias, numa comunicação a grande escala, em rede e informacional que se pode
mudar, alterando e substituindo as linguagens e a liberdade como reconhecimento da nossa contingência. O
medo do criador será o de não lhe restar mais nenhuma obra própria a realizar. A tarefa artística pode ser
concentrada nos actos de corte e de negação com as sequências que, ao recriarem-se nos seus vazios, removendo-
se em retóricas apodrecidas e destruindo-se sobre sistemas anquilosados de persuasão, não coincidem num
momento de maturação único e pessoal. Desta forma, atingem no sublime acto de rejeitar imagens salvadoras, o
apagar das vontades em abreviaturas de crenças e de desejos que já não impelem a agir. São estes os momentos
mais lúcidos da falta de futuro universal. Só lendo, observando e ouvindo podemos alargar os nossos contactos e
conciliar as nossas dúvidas sobre o carácter que temos e sobre o outro lado de nós que é exterior e público. Todos
receiam ficar prisioneiros do discurso em que foram educados e que é o seu. Heidegger desenhou a sua
experiência de comunicação, tentando evitar ser didáctico, suprimindo o uso de palavras que perderam o brilho,
aquelas que foram reduzidas quase à transparência pelo seu uso comum. Quando o que se inventa passa ao uso
comum, é reduzido a mero instrumento para a realização de um fim exterior às suas finalidades iniciais. À luz do
trabalho de Maria Schneider percebe-se como uma obra pode ser tão inclassificável quanto estranha, situando-se
fora de um qualquer critério mínimo conhecido. Este fenómeno poderá explicar o esforço necessário para que se
realize uma síntese apurada de acumulações recebidas, negando o expediente de agrupar semelhanças e
diferenças que não sofram o tipo de banalização dada pelo uso ligeiro e utilitário das linguagens, de forma a que
se consiga atingir um estado de máxima expressão, extemporâneo e deslocado a partir da enorme dificuldade
inicial - algo que traduza uma libertadora transparência final.


Jason Lindner, Bill McHenry, Omer Avital e Daniel Friedman

Receia-se que a liberdade de auto-expressão, a livre expressão de uma vontade criadora, na sua forma mais pura
e mais forte, constante em todos os indivíduos, possa vir a desaparecer, extinguindo-se do mesmo modo como
tantos homens e outros seres vivos cuja incompatibilidade de determinados fins últimos sobre a perda do seu
desaparecimento, fez prevalecer. A arte é mais uma voz que fala associada ao objecto no qual se incorpora.
Através do juízo de valor, tudo o que possa existir com as suas características próprias, independentemente do
propósito, do carácter e do meio social que lhe deu origem, cria um desfasamento cada vez mais inevitável que
divide e afasta a obra do seu contexto inicial. Esta falta de espaço associada a um défice incessante de tempo,
provoca a sua separação da natureza que, quando levada às últimas consequências, desprotege os sentimentos e
as acções de quem frui, enfraquecendo leituras e conteúdos, impedindo a organização de defesas sobre a sua
aguda permanência. É seguramente aconselhável nunca calcular o incalculável, nem pressupor que existe um
ponto central no universo, sobre alguma estrutura eterna e pesada, a partir da qual tudo é mensurável e
alterável. Ao ser preferível aplicar a cada contexto os nossos pequenos métodos individuais, mais
descomprometidos e mais leves e que melhor se adaptam aos contextos fugidios e voláteis da actualidade,
desejando produzir os melhores resultados, envereda-se por uma atitude susceptível de encontrar novos conceitos
de humanização, numa estrutura social que surge num sentido muito impessoal e não induz nem uma ideia de
progresso, nem de evolução - um modelo clássico já desgastado que permite estudar, distinguir e classificar
aquilo que pode ser isolado através da detecção das suas características mais permanentes. Quando as situações
começam a tornar-se mais familiares e mais presentes no nosso mundo, este facto aparentemente benéfico, leva a
que fiquemos pressionados por ele e, no seu seguimento, percamos as capacidades de reparar e de rescrever os
seus conteúdos. Todos falam das razões do coração, da natureza moral ou espiritual, do sublime ou do profundo,
da visão que se adquire nas tipologias especiais do conhecimento e da compreensão, interagindo sobre uma
unidade inscrita no universo, uma infinidade de relações que permite alcançar a ligação entre o movimento
inalterável, gerado pelos laços existentes dos que nasceram e daqueles que ainda vão nascer. Sente-se uma
corrente indiferenciada que sublinha este contraste, gerando profundas diferenças e até violentos antagonismos
entre a compreensão e o conjunto de situações expressas no realismo céptico e no autoritarismo dogmático.
Apesar de todas as mudanças entre o interior e o exterior, persiste o conhecimento dos limites da imaginação e do
pensamento - o confronto com o padrão exterior que divide e fragmenta a verdade. Não existe mais tempo para
visões de unidade na experiência da história, como se esta fosse possível conhecer, enquanto verdadeiro saber de
uma realidade assente na crença incomunicável da sabedoria do sábio. A música de Jason Lindner, Bill
McHenry, Omer Avital e Daniel Friedman indica que nada pode ser prognosticado porque a parcela de vida
submersa não examinável fica permanentemente fora do alcance das inúmeras possibilidades de apreensão,
ampliada nas complexas relações em rede. A ficção que permitia ver aquilo que nos escapava, mostrando a
consciência de interacção entre o ponderável e o seu contrário, aquilo que podíamos encontrar no quotidiano,
ensinava a resolver conflitos, ao achar situações de equilíbrio no que se vê e naquilo que nos limita. O que
funciona e que é incompatível, o que se pode conciliar no que é inconciliável, o que se vive e o que as finalidades
deixam atingir, não possibilita o encontro de uma solução, nem a resolução dos problemas que o quotidiano
coloca porque agimos de determinada forma e não de outra e porque orientamos a vida como se existisse um
propósito único capaz de adquirir uma certeza mínima. O conhecimento sobre a falta de uma verdade que vem
causando destruições irreparáveis nas parcelas de vida de cada indivíduo e na forma como vamos ficando
impedidos de ter certo tipo de reacções, abre o horizonte da contingência como a única grande escola da
existência.
AUTOR: IVO MARTINS 
EDIÇÃO: Programa Guimarães Jazz 2005 - Câmara Municipal de Guimarães/ Associação Cultural Convívio/ A Oficina     DATA: Novembro de 2005 







                                 INTRODUÇÃO


Quando falamos em alcançar visões concordantes sobre as dificuldades sofridas no caminho da existência,
estamos a referir o que elas têm em comum relativamente à sua disposição no tempo. A prática de tratar o
passado como um caso presente, quando essa mesma ideia pode ser associada ao futuro, faz com que exista uma
complementaridade que põe a questão de ter de se saber agir com as ideias que, aos nossos olhos, se encontram
velhas e desactualizadas. Esta fonte de estímulos, que teremos de ignorar ou de rejeitar, caso contrário ocorreria
um erro definido na descontinuidade entre os acontecimentos que persistem num determinado conjunto de
interesses, faz com que tudo o que vai passando, apareça como um momento que, sendo visível e sustentado por
inúmeras manifestações de evidência, nos pode trazer uma novidade. O novo não é um conceito crítico sobre o
qual se possa trabalhar, sem que se perca a esperança de encontrar outras indicações de valor para além desse
estado. É impossível falar do que agora acabou de surgir, sem ter em consideração que estamos sempre a utilizar
uma linguagem antiga. Há, portanto, uma tendência para agirmos de forma generalizada sobre as análises que
fazemos, sem que tenhamos consciência de que, de facto, acontece uma incarnação que altera as relações com o
passado. Ao ser uma transição sem fim, o tempo não termina com o decorrer das histórias que ficaram anexadas
na memória e, ao percebermos que as histórias continuam a não explicar as suas brechas perturbadoras, os seus
intervalos de falta de entendimento, as suas fissuras, a segurança adquirida no saber, continuamos sem
encontrar explicações suficientes sobre a complementaridade final de todos os acontecimentos. Neste sentido, a
tarefa de se estabelecerem relações causais nas várias fases por onde passam os acontecimentos, entre momentos
importantes que aparecem durante um dado período, uma época, uma era ou um contexto de um determinado
movimento estético, torna-se uma actividade de difícil realização, sobretudo quando a concordância encontrada
é uma ordenação simplificada, uma hierarquia sujeita e dependente daquilo que se está a fazer. Não é fácil
aplicar a muitas das preocupações de autocrítica sobre o mundo em permanente mudança, a nossa intervenção
que é cada vez mais insuficiente para alterar o desenrolar dos acontecimentos. Uma ideia que não seja de
apocalipse não transfigura a tendência traduzida num estado generalizado de grito permanente, revelado sobre
um sentimento de impotência global que furta o entendimento do mundo, no que ele reproduz de paixão infeliz
sem forma, nem tempo. O programa do Guimarães Jazz está dominado por todo este tipo de conjunturas que
determinam as nossas avaliações. Nada pode ser utilizado sem uma ironia provocante porque o novo é sempre
ininteligível e a sensação de que existe um pequeno número de pessoas, aglutinado num público minoritário que
entende este facto, não põe fim às angústias que sentimos, nem ao aparecimento de muitas interrogações. Se a
novidade não reflecte absolutamente nada e só se define através de uma relação estranha na apreensão sobre o
futuro, do qual o núcleo muito restrito de indivíduos compreende o seu significado, utilizando modelos que
retiram do seu passado mais remoto e oculto, é porque a obra de arte contém particularidades que não
saberemos nunca entender, nem nunca seremos capazes de dominar. Aquilo que é novo implica impotência e
conhecimento sobre um passado que, não sendo necessariamente novidade, pode ser utilizado por todas as
pessoas como processo natural de compreensão. Temos uma tendência para reler o que, durante muitos anos,
este festival forneceu como elemento crítico, revelando que se nos tivéssemos preocupado em estabelecer ficções
de concordância, elementos facilitadores de uma unanimidade sobre todos os discursos de ordenação no tempo,
continuaríamos a não encontrar respostas nas acções de integração que se fizeram sobre a realidade fixada num
fim comum. Nunca teria sido criada tanta tensão à volta do Guimarães Jazz, nem teriam surgido alguns
ambientes de ruptura como momentos essenciais favoráveis ao crescimento e à consolidação dos projectos
porque estabelecemos pontos de corte e de atrito As nossas decisões parecem ser réplicas atentamente
confrontadas com explicações sobre o acontecido. O que nunca foi capaz de ter saído do estado de concordância
ou do estado de um assentimento concordante, tende a atrofiar-se e a morrer rapidamente. Um dos aspectos
mais importantes do Guimarães Jazz, situa-se no suceder dos acontecimentos nos quais se estava, por vezes,
muito longe de imaginar o número de consequências pelo aparecimento de discursos alternativos, pelas
narrativas interessantes e úteis que vieram a promover novas aberturas. O que se passava era o ressurgimento de
um fenómeno geral de recusa e de integração que se vinha realizando todos os anos através do jazz, dos músicos e
dos projectos apresentados. A possibilidade de, neste contexto, surgirem novas reacções e novos ciclos de
acontecimentos, criou as condições necessárias ao desenvolvimento e ao desenrolar de renovadas leituras. Se
admitimos para a arte em geral, uma ideia na qual está contida uma afirmação de realidade, devendo o seu
conteúdo estar sempre em primeiro lugar, é porque percebemos que esta dedução se aplica a tudo aquilo que
vamos construindo como proposta de programa. O interesse não se deve esgotar nos sentidos retirados, nem na
proximidade relativa da ordem dos concertos em cada ano. O momento presente, aquele que está mais nítido, as
influências dos outros festivais, a palavra veiculada na escrita jornalística, as conversas das pessoas interessadas,
induzem outras análises e novas discussões que acabam por focar quase em exclusivo, o espaço de tempo do
festival, nada podendo ser feito sem que tudo isto sofra as consequências dos aspectos mais equívocos. Quando
tentamos estabelecer uma ordem e um desígnio sobre este presente, estruturado na programação do Guimarães
Jazz 2005, sentimos que estamos a escolher uma via de crise que se sujeita a ser interpretada de muitas formas
diferentes. Este aparente desfasamento parte da necessidade de que algo deveria ser dito sobre o sentido dessa
crise, expressa nas explicações que se retiram do público, dos diversos meios de propagação de ideias e das
conversas das pessoas. Pensamos, contudo, que esse momento pode ser um elemento central do empenhamento
em prol de uma tentativa generalizada de compreensão, causada pela sua singularidade. Quando o Jazz pode
estar a ser levado ao extremo limite da sua própria existência, podendo ser engolido por outras músicas que se
situam num tipo de unidade histórica mais consistente, sujeito a uma transição catastrófica para outra cultura
que já outros teriam sentido, também percebemos que o desenrolar dos acontecimentos, através destes pontos de
vista aparentemente negativos, podem ser o reflexo de um saber sobre as limitações da nossa actividade. É
sempre difícil deduzir o porquê de não termos o direito de construir um programa que tente ser o reflexo de uma
sensibilidade apocalíptica generalizada, quando essa estranha forma de sentir nos aparece de uma maneira
tentadora, no que vem surgindo com mais evidência no termo de uma era cujos momentos críticos tanto podem
ser princípios como fins. Ao sermos confrontados com os medos actuais, com o cepticismo das imagens do
horror, com as poses grotescas dos homens do poder, com a imagem profunda da decadência, com a falta de
confiança profusa das organizações e com a impossibilidade de uma renovação sem perdas sérias de vária ordem,
percebemos como nos encontramos cercados no meio de um momento de abertura suprema, numa época que se
quer transformar noutra e que, paralelamente, jamais se poderá recuperar. A nossa inocência perdida, aquela
que existia no tempo em que para se ouvir jazz não tínhamos necessidade de dar a mais leve justificação está,
desde agora e enquanto existir esta consciência de possível perda de valores que sentimos aumentar à nossa volta,
num decréscimo de influência. Será bom dedicarmo-nos à tarefa de defender as ideias de todos aqueles que
existem e que nos falam do Jazz como uma arte que adquiriu um papel, ao qual pode ser atribuído um
significado humano de uma radical liberdade. Deverá pôr-se de parte o que consideramos demasiado, no
momento menos apropriado para as necessidades e para as práticas contemporâneas. O hábito de nos
aproximarmos de uma obra de arte com uma atitude receptiva de interpretação, alimenta a fantasia de que
existe algo mais do que o que se detecta na noção de conteúdo - uma determinação superior alojada no objecto
sobre o qual se aplica uma excessiva ênfase.
“Não há factos, apenas interpretações”, dizia Nietzsche, alertando para o perigo de sermos incapazes de
compreender o fenómeno, não achando um equivalente necessário à preservação da realidade que nos cerca.
Neste pressuposto, o programa do Guimarães Jazz não pode ser percebido como uma coisa que remete para o
acaso, ou para um sentido que não estivesse já contido noutras edições. Se existisse um explícito desprezo por
tudo o que até aqui se tinha passado, a realidade resultante não teria qualquer significado plausível e a
interpretação surgida neste quadro seria impertinente, traiçoeira, conservadora e dramaticamente atrofiada.
[ ENGLISH ]
Katrine Madsen com a Danish Radio Orchestra

O que me atrai na decadência é a possibilidade de todos poderem sorrir perante a auto-desilusão permanente.
Neste estado de recusa de viver, segundo os padrões ditos correntes, teremos de exceder sempre os nossos limites
como uma forma de superação, utilizando a destruição. Não passar além das fronteiras do nosso pequeno mundo
e não esperar muito dele, anulando uma parte considerável de todas as barreiras e saindo do círculo normal das
coisas efémeras, faz lembrar aqueles que aplicaram questões de estética a meros valores pecuniários, forçando os
artistas a venderem os seus produtos como se fossem mercadorias. A decadência situa-se no ponto crucial dessa
passagem - no preciso momento em que sentimos ter deixado de existir um equilíbrio entre o útil e o necessário.
Tudo o que se define como útil tem uma tendência degenerativa evidente e vive sempre abaixo de um limiar
mínimo de sobrevivência. Quanto mais a utilidade passar a ser forjada por sistemas massificadores de formação
de opinião, tanto mais a utilidade daí decorrente será uma simulação. Por vezes parece que estamos a viver por
baixo de uma estação de comboios - cada passagem de locomotivas equivale a um abalar intenso do nossos
corpos, os quais ficam sujeitos, de uma maneira indefesa, às vibrações dos carris. Tudo treme e tudo se sente
inseguro, incapaz de reagir a uma ideia de medo mesmo à beira de um atropelamento destruidor. Este momento
de insegurança transforma-se num grito longínquo de impotência que anuncia uma enorme perda de unidade
sobre todas as formas de vida passadas. Deixámos de ser homens que orientavam os seus comportamentos,
segundo utilidades que os instruíam como seres humanos preocupados com “responsabilidades civis e sociais”.
Perdemos para sempre o sentido do mundo coerente, explicado segundo um processo de evolução e de progresso,
no qual apenas somos pequenas partes de um universo em crise. Foucault pensava que a verdadeira história do
homem fora demasiado curta e que naquele momento ele era um ser obsoleto. Porém, o que não é obsoleto,
actualmente?
Terminaram os tempos das rupturas. Queremos e desejamos viver em paz e não se devem atribuir papéis e
destinos que não sejam sentidos como nossos. O facto de se estar farto das grandes profecias e das missões
impossíveis, no desejo apenas de se ser um tipo normal que não se situe entre uma ideia de Deus, nem de Diabo,
não querendo fazer parte de nada em especial e não se interessando pela história do homem, nem pelo seu
futuro, talvez consiga transformar os homens em seres responsáveis por alguma coisa que se aperfeiçoa, na
demissão de todos os cargos e lideranças.
Poderemos pensar que tudo isto se deve ao grau de sofisticação e de entendimento que atingimos, como parte de
uma grande civilização e de um desenvolvimento que progride numa força extraordinária não susceptível de se
controlar. Assim sendo, isto pode, de facto, acabar muito mal. Não ultrapassaremos nunca a imagem de um
homem de rua, vulgar e mundano que, provavelmente, será mais um medíocre consumidor que nunca se irá
preocupar com os sons puros, despidos de significação humana. A maioria concorda que vivemos num mundo
pluralista, capaz de aceitar sem limites todos os acontecimentos e isto faz com que se esteja imediatamente
perdoado porque, em princípio, tudo é permitido. Daí que nos seja autorizado enganarmos e enganarmos os
outros, da mesma forma como a velocidade da mudança tende a desvalorizar os efeitos da própria mudança.
Deste modo, vamos assistindo ao enterro diário da novidade, daquilo que nos aparece como um momento de
superação da realidade e da força criadora, inscritas na arte suprema de se ser um homem disposto a praticar
actos de heroísmo, numa sociedade global e mutante. Somos os filhos do tempo presente, do dia eterno, do olhar
fixo, do gesto parado, do acto falhado... no espaço descrito por Baudelaire quando escreve em Les Fleurs du Mal,
que «A modernidade é o transitório, o fugitivo, o contingente, a metade da arte, da qual a outra metade é o
eterno e o imutável...». A música de Katrine Madsen com a Danish Radio Orchestra está reflectida numa
ambivalência e numa ampla oposição de valores entre estes dois grandes momentos.


Art Ensemble of Chicago

Ao fazermos uma escolha estamos a assumir todas as responsabilidades inerentes a esse acto. Perante as
consequências de estabelecermos um possível entendimento totalmente diferente daquele que tínhamos acerca
das nossas ideias, coloca-se-nos a questão da possibilidade de errar e, neste sentido, vem-nos de imediato ao
pensamento uma interrogação sobre qual vai ser o movimento causado pelo medo que nos surge, na sequência
dessa liberdade. Há dias em que a dimensão do receio causado pela abertura da mente a todas as hipóteses
possíveis de libertação, pode repelir qualquer tentativa de superação. A ultrapassagem do patamar de
entendimento em que nos encontramos, repele e anula a acção de escolher porque, quando falta uma referência
que possa ajudar a reflectir sobre os vários passos a dar, surge um vazio situado no estilo que assume a totalidade
da decisão tomada. No contexto da criação de uma obra de arte, o estilo traduz a vontade do artista que deseja
explorar até à exaustão todas as possibilidades da imaginação, podendo ser capaz de originar uma série
infindável de elaborações sobre o mesmo tema. As opções que resultam das decisões sobre as características
estéticas de uma obra, são também um modo de a restringir, de a limitar numa recusa contida noutras
elaborações. As repetições tornam-se forma, revelando uma parte essencial da obra que surge inteligível, indo
assim, facilitar a sua compreensão. A possibilidade de se virem a acumular impressões, como conjuntos de
estímulos imediatos dos sentidos e de estes mesmos estímulos serem memorizados, pode vir a influenciar todas as
escolhas futuras, criando aquilo a que muitos chamam estilos. A dificuldade ocasionada pela impossibilidade de
os estilos poderem nascer lentamente e evoluírem gradualmente através de longos períodos de tempo, como
momentos necessários à sua plena assimilação por parte do público que se apoia nestes mecanismos de repetição,
é um dos aspectos mais importantes que ajuda a definir os tempos presentes. Como tudo está a acontecer muito
rapidamente, de tal forma que nem se dá o tempo necessário para que possamos respirar, os processos de
assimilação ficam por completar e, ao serem percebidos como uma obra que se repete num curto espaço de
tempo, muitas das suas áreas envolventes tornam-na imperceptível e simultaneamente ininteligível. Revela-se
assim, ser essencial ao processo de apreensão do seu conteúdo, a possibilidade de possuirmos um passado
necessário à descoberta dos princípios da variedade e da redundância. Todos os estilos são, por isso, um
expediente que o artista possui para poder insistir em qualquer coisa. As obras de arte mais poderosas são as que
nos transmitem a ideia de que o seu autor não tinha outra alternativa, sendo esta maneira de actuação, o
resultado de uma concentração intensiva sobre o seu estilo. É evidente que não basta colocar a questão de se
saber o que está certo ou errado. Todas as tomadas de decisão são limitativas, sobretudo quando tentamos
interpretar fenómenos estéticos. Tanto este esforço como o empenhamento individual são insuficientes para
elevarem as análises acima de um ponto de vista pessoal.
Os momentos mais altos são sempre isentos de ideias interesseiras. As retóricas que resultam do poder servem, no
fundo, apenas para nos veicular a uma unanimidade que, por mais atractiva que seja não consegue compreender
senão, de modo censório, a textura, as particularidades dos seus actos, nem possuir uma visão privilegiada da
realidade contemporânea. As críticas genericamente falando, pese embora o seu apego ao progresso, mostram-se
singularmente insensíveis à maior parte dos aspectos interessantes e criativos. Quando sentimos que existe uma
clara falta de interesse pelo processo criativo, naquilo que se pode disseminar como ruptura, tão diferente em
qualidade como em importância do conceito de vanguarda, verifica-se que, cada vez mais, aparece uma
tendência para perceber a arte contemporânea como um conjunto de actos de alienados, desumanos nas suas
formas, ou mecânicos nos seus pressupostos, conjugados numa fácil exploração da sua incapacidade em
estabelecer consensos nas sensibilidades. Esta fraqueza faz com que o movimento artístico moderno se baseie
numa espécie de forma de poder pelas características formais que adquire. A compreensão do mundo exige
coragem, prazer pela aventura, resistência à solidão e também pensamento apurado e livre de ressentimentos. A
alienação como um angustiante subproduto da nossa inteligência persegue-nos, impondo face às nossas dúvidas,
as maiores incertezas, - anulações numa visão dualista da cultura - uma consequência das várias estruturas
institucionais que nos cercam e nas quais nada se forma de maneira neutra. São os homens que controlam e
fomentam esta alienação intelectual, em que os próprios vivem padrões de valor situados numa visão de rejeição
da dissidência. A arte vista como um acto capaz de salvar, através de um curioso e ambicioso processo de catarse,
parece ter sido abandonada, passando a exprimir-se numa técnica de desempenho político. Quando se
estabelecem juízos críticos, as atitudes das pessoas parecem movimentar-se dentro de um jogo, uma estratégia de
luta vista como actividade manipulável, utilizando esquemas de confronto diferentes, no qual os jogadores
podem realizar diferentes lances. A linguagem é a metáfora para analisar estes movimentos. As análises não
provam nada sobre os conteúdos, nem sobre os objectivos que exploram, a não ser o facto de se verificar a
necessidade de uma ordem considerada numa posição mental, assente na ideia de que não existe uma verdade
universal sobre as relações que se desenvolvem entre a música e o seu ouvinte. As narrativas que daqui resultam
são modelos que confirmam esta variabilidade entre uma experiência musical e o gosto pessoal. Contudo, as
narrativas também são sistemas lógicos de descrição e de flexibilização das regras do jogo, quando este começa a
sugerir tensões e contradições.
A distância da experiência pessoal, perante a ideia de segurança dos factos e dos sentimentos, é um momento
essencial de estruturação dos discursos que assim se deixam purgar pela severidade das suas contenções. A
música dos Art Ensemble of Chicago indica que o jazz vive um momento difícil de se situar, face ao horror da
violação, da destruição final e irrevogável dos povos que lhe deram origem. Esses povos tinham uma história que
nos era desconhecida e que se situava por fora das sociedades conduzidas pelo domínio do progresso, vivendo
num estádio mais estático, cristalino e harmónico de liberdade. Por isso, essas sociedades eram muito mais
impregnadas de pensamentos míticos. Neste sentido, o seu acto crítico foi simultaneamente marginal e central,
localizado dentro de uma realidade que se torna quase intolerável, organizado por uma intelectualidade
marginalizada, traduzida no homem que prefere a alegoria a uma consciência histórica. Há épocas demasiado
complexas, demasiado barulhentas para se poder escutar a voz do bom senso, nos quais a verdade não é um
elemento fundamental de aquisição para uma visão sadia do mundo. A necessidade de verdade não foi constante
na história dos homens e, por vezes, uma ideia, mesmo sofrendo de distorção, pode induzir um impulso criativo
superior àquele que foi gerado pelo escrupuloso cumprimento da verdade. Isto revela que o equilíbrio resultante
da aplicação de uma verdade nem sempre tem como seu oposto o desequilíbrio assente na elaboração de uma
mentira.


Final

Existe uma tendência conjuntural que leva a que muitas das abordagens sobre o jazz se façam utilizando
métodos descritivos e narrativos. A história olhada numa perspectiva cronológica é uma das formas mais
estafadas de perspectivar e de estabelecer sequências sobre sequências, pretendendo-se dar a entender que se
está a perceber mais alguma coisa sobre o que já está ordenado no tempo. Outra das formas que se encontra
bastante em voga é a das chamadas práticas descritivas sonoras, exercidas sobre as gravações que se colocam no
mercado ou sobre os concertos que parecem acumular, nesses momentos cruciais, muitas razões e causas
suficientes para serem capazes de fornecer explicações sobre o facto passado, sobre o momento do registo ou
sobre a sua audição. É evidente que, ao repisar estes terrenos, percebe-se que se procuram achar apenas
pequenos expedientes de última hora, numa sobrevivência reveladora de pobreza sobre conceitos e
conhecimentos. Os seus praticantes afligem-se, empobrecendo de uma forma irreparável todas as leituras e todos
os significados que a arte pode fornecer e que, neste caso, a música de Jazz pode conter. Quando isto se passa,
muito pouco haverá a dizer sobre a enorme banalidade das linguagens que formatam textos e escritas, com mais
ou menos metáforas e dizeres a propósito. Tudo vai caminhando penosamente de lugar em lugar, com mais ou
menos datas conhecidas, com mais ou menos nomes e lugares de nascimento e de morte...
O didáctico é um enredo fácil que serve de alibi a um buraco negro do conhecimento contemporâneo,
perigosamente generalizado no saber tipo shopping, assente na ideia geral que se assume numa simulação
matreira, sobre o medo de arriscar o mais pequeno pensamento sem rede. Vive-se numa época em que não se
aconselha grandes divagações intelectuais à volta daquilo que não é desde logo explícito, nem daquilo que não se
determina com clareza perante os nosso olhos. Logo a seguir e de uma maneira muito subtil, estamos a ser
convidados a reter as práticas de exercício analítico, as subtilezas das visões dialécticas, as descoberta dos nossos
vocabulários finais, a idiossincrasia e a destreza da nossa imaginação...