TEXTOS

Kenny Wheeler e Big Band

Aquilo que melhor caracteriza a actualidade é a existência de uma pluralidade de vozes que descrevem situações
jamais passíveis de se completarem, ou serem suficientes na representação do seu conteúdo. Vivemos um estado
de negação acumulada e somos incapazes de estabelecer com a música um método exemplar de entendimento
que seja padrão. Continuamos a depender da capacidade de captar a atenção dos outros e de provocar nas
pessoas uma emoção capaz de forçar respostas. O acto de compreender e assimilar a música é um momento
eminentemente privado através do qual podemos contemplar o distanciamento daqueles que nos rodeiam. O
acto de criar esconjura a forma como entendemos a vida e obriga-nos a reconhecer o momento de grande solidão
a que estamos sujeitos. Quando ouvimos algo de diferente, esta situação solitária pode assumir um carácter
fatalista e fazer-nos tentar actuar de uma maneira criativa sobre o nosso próprio silêncio. Desenvolvemos
relações de nós para nós, induzimos novos procedimentos na busca da essência do acto musical, comparamos e
construímos as lembranças como se houvesse uma necessidade de ultrapassar todos os limites e de provar que é
possível agir sobre a sensibilidade individual, suportando tudo o que nos é exterior. Talvez seja esta a tarefa que
teremos para cumprir quando percebermos que a interpretação de uma obra musical é um acto constitutivo de
arte. O silêncio que existe dentro de cada um de nós, confrontado com aquilo que ouvimos, exprime-se numa
experiência pessoal, impossível de se fixar através de uma descrição, ressaltando na nudez do seu carácter o
silêncio da sua contemplação. No momento em que descobrimos este grau de imponderabilidade e de isolamento
comunicativo, percebemos o verdadeiro desafio de sobrevivência que nele está localizado.

O silêncio não é uma experiência do indivíduo solitário mas uma consequência social da sua identidade. Quando
as palavras parecem ser as mais adequadas para exprimir uma determinada realidade, e mesmo quando a voz
ocorre como o grandioso momento sonoro dessa descrição, continuamos a não ser capazes de transformar em
comunicabilidade tudo aquilo que sentimos. A música de Kenny Wheeler fomenta um estado de oposição entre a
voz e o silêncio, que tantas vezes se misturam e que tantas vezes se relacionam para lá da linguagem, como
qualquer coisa que se vai reconhecendo e que implica uma experiência individual. Todas as músicas se
encontram no puro reino do som e das suas sonoridades mágicas, onde o Jazz revela um pensamento através de
uma imagem metafórica num espaço vazio e aberto por um grito. O grito apresenta-se como a negação da
linguagem e o seu som é o terror levado aos limites da mudez absoluta. Quando a música é capaz de expressar a
sonoridade, a atitude e o carácter de uma raça, de uma cultura e de um homem, adquire automaticamente a
capacidade de ser voz e de se tornar grito. A música revela um estado de grande comunicação, como o único meio
de salvar as pessoas de um isolamento comunicativo generalizado, quando estas se encontram num ambiente
onde todas as faltas de referência são meras falhas de interacção. Ao fugir deste isolamento através da música,
estamos a alterar e a melhorar a difícil relação que estabelecemos com o nosso medo e com o nosso silêncio,
relançando a esperança sobre a voz reencontrada e reconstituída no clímax de uma integração fundadora e
reguladora de novos sons. A música pode ser uma narrativa que nos ajuda a compreender o que somos e que nos
chama a atenção para os vários problemas da assimilação e da restituição de verdades, como contraponto à
retórica indiferenciada que nos cerca.


Terence Blanchard

A palavra sul é um valioso ponto de referência na análise das condições em que se verificaram muitos dos
acontecimentos culturais associados e relacionados com este elemento geográfico. Existem formas subjacentes de
expressão cultural que dizem directamente respeito a um espaço de convivência. Há um código de símbolos
facilmente identificáveis que reconhece padrões sociais e políticos, revelando explicações sobre muitas das causas
de marginalização dos povos sujeitos a uma falta de desenvolvimento crónica, reféns do espectro de miséria
permanente em que vão sobrevivendo. A pobreza e a cultura urbana emergem segundo a mesma fórmula, no
terreno abundante da grande metrópole. A cidade surge-nos acrescida de novos matizes, passíveis de serem
detectados na beleza dramática de um conto popular ou no sofrimento irredutível de uma tragédia doméstica. O
conceito suburbano transforma-se numa oposição entre convenções e formas sociais estáveis, dando origem a
outro tipo de histórias e narrativas que retractam as experiências das pessoas - os imigrantes procuram encontrar
uma nova felicidade na terra prometida das oportunidades. Os contrastes formados pela variedade de situações
de vida, os caminhos abertos por uma necessidade de fuga à miséria e à injustiça, criam necessidades de
adaptação nos contornos da cidade que se desenvolve a partir do século XX como grande espaço de actuação
marginal. Estas alterações significativas vão influenciar o modo como as pessoas passarão a entender-se e a
relacionar-se. As populações em movimento começam a desvendar os vestígios invisíveis das suas culturas
originais, que elas próprias transportam como recursos de identidade e subsistência junto dos seus haveres e das
suas memórias. O sul surge-nos como um ponto de referência geográfico fundamental para percebermos
algumas das manifestações artísticas do século passado, bem como as modificações de elementos no meio
citadino em processo de auto-preservação cultural. New Orleans encarna nos Estados Unidos da América um
desses espaços sensíveis, um lugar onde se verificou durante muito tempo elevados níveis de mistura étnica e
cultural. A posição estratégica desta cidade facilitou o processo da mestiçagem de heranças, no incremento da
imaginação e na fantástica redescoberta do divertimento como processo de fuga aos problemas, transformando a
angústia num elemento culminante do entretenimento. O Jazz provém desse território cheio de narrativas de
resistência e possui uma intensa paixão pelo prazer. Uma resistência contra as forças que, directa ou
indirectamente, transformou o sofrimento num mecanismo de perpetuação da desgraça e da alegria. As suas
vítimas foram levadas a aceitar o estado de uma consciência racista e sexista institucionalizada, subtilmente
opressiva, através da qual se encontraram as metáforas de superação provenientes dos lugares ambíguos, onde
ainda hoje se encerram muitas das explicações poéticas sobre as suas origens. O Jazz é uma das grandes
manifestações de insubmissão, assente na intriga sobre a condição humana que o seu estado trágico ajudou a
revelar. O Jazz é acção, uma experiência centrada na possibilidade de existirem, a seu lado, novas clarificações
cognitivas que poderão levar a uma mudança social ou pessoal. Quando percebemos um fenómeno musical de
cunho eminentemente urbano, New Orleans passa a encarnar uma das suas primeiras visões. A música de
Terence Blanchard redefine uma busca por estas origens ao destacar o conjunto de elementos intemporais do
Jazz num espaço recente de novas vivências sócio-culturais que os tempos presentes suscitam e obrigam a
reconsiderar. Também se pode tentar compreender o que é, actualmente, o Jazz. Uma música improvisada, que
parece estar a desaparecer na fronteira entre os elementos mais tradicionais e todas as outras experiências
artísticas passadas e presentes, que entretanto foram sendo desenvolvidas e vividas a partir da segunda metade
do século XX. Quando fazemos esta apreensão sobre o fenómeno do Jazz, sentimos uma necessidade de
compreender os seus mecanismos de desenvolvimento nesta terra de ninguém, onde os limites das suas
superfícies se movem rapidamente, e onde tudo se encontra em grande tensão modificadora, como acontece em
todas as artes. Ao descobrirmos que a variedade dos géneros e dos seus tipos impede qualquer espécie de
orientação normativa, concluímos que a falta de rigidez de todas as certezas actuais pulverizaram as práticas
tradicionais de redefinição ordenada.


Sei Miguel Quarteto

A prova infalível de que penetramos um novo campo gravitacional, situado no espaço da música e do Jazz, é a
mudança de direcção que actualmente valoriza a narrativa individual em detrimento da história colectiva. A
palavra e a voz detêm um papel fundamental na descrição da história. Actualmente o conceito de história
começou a dissipar-se noutros géneros, onde as narrativas partilham diferentes papéis, abarcando qualidades
que incluem modos de representação tais como o mito, o sonho, o inconsciente, os filmes, as imagens, e todas as
situações que ainda não esgotaram a possibilidade de serem contadas. Aparecem então os subgéneros, as
músicas ambiente, as sonoridades performativas, as electrónicas, as máquinas, os modelos abertos e
multidisciplinares de exploração, como se todos os manuais de instrução, as notícias dos jornais, as retóricas
palavrosas e os clichés culturais começassem a fazer parte do texto reinventado, na arte de contar o momento
presente. As incorporações de fragmentos, as construções de miniaturas, o diálogo, as personagens, a paisagem,
a conversa, as cartas, as anedotas, os inúmeros materiais bibliográficos da literatura tradicional, começaram a
reorganizar-se num espaço narrativo que se desenvolve à medida que as propostas de outras utopias esbarram
numa impossibilidade prática de concretização. Todas as verdades universais daí decorrentes passaram a
adquirir uma contingência e uma relatividade totais. Quanto mais se duvida, mais se pressente a fragilidade das
formas artísticas oferecidas pela explicação dos problemas intelectuais. A mudança rápida do meio onde
procuramos soluções exige que se coloquem mais perguntas sobre os acontecimentos que no passado se
apresentaram seguros e sólidos. Esta inconstância, esta imprevisibilidade que nos determina, requer outro tipo
de pensamento sobre os processos históricos passados, significações de momentos consolidados e estáveis,
passíveis de existirem como uma visão que torne a música numa parte da realidade histórica. A falta de
orientação gerada pela mudança rápida de referências origina reacções controversas que muitas vezes se definem
numa desdenhosa mistura de hostilidade e desprezo. Ao não existir, actualmente, uma narrativa unificada e
oficial para o Jazz, como em todas as outras manifestações artísticas, o mundo transforma-se num espaço
indisciplinado, verboso e contingente, com uma largueza exagerada de conceitos e uma dose insustentável de
ambiguidade que o torna impossível de se organizar no quadro histórico que lhe caberia. Numa dimensão
fragmentada, se cada pessoa tivesse o direito de fazer prevalecer as suas próprias histórias, e elas fossem
elementos importantes na definição da realidade presente, a pluralidade de discursos colocaria a narrativa numa
situação contrária à sua função original, ao seu texto absoluto, anulando deste modo o espectro das visões sobre
o mundo, uniformizando e unificando. O Jazz sofre deste problema de fragmentação de linguagens quando tenta
narrar uma realidade que se apresenta improvável e pouco plausível. Quando somos confrontados com situações
de impasse inexplicáveis para os nossos cérebros, ficamos predispostos a superar essa limitação, criando soluções
artificiosas. A música deste quarteto, liderado por Sei Miguel, é uma experiência de procura sobre o auto-
conhecimento, uma investigação de geografias emocionais que compõem uma imagem possível de ser narrada,
trazidas a este espaço por cada uma das pessoas que nele tomam parte e que tentam fazer de cada interpretação,
sobre a saturação da nossa fala e da nossa escrita, uma narrativa coerente e ajustada dos problemas específicos
da sua existência.


Cecil Taylor - Tony Oxley - Bill Dixon

Tudo aquilo que pode criar uma nova experiência de vida tem um papel fundamental no processo de
aprendizagem das pessoas, quando estas se dispõem a ouvir histórias, a escutar música, a ver arte ou a pensar.
Os indivíduos definem-se para além da sua própria pele e na complexa teia de relações humanas, podendo
organizar ligações cheias de significados e mudanças benéficas, apesar do medo, apesar do peso dos conflitos,
apesar da influência dos interesses e muito para além da presença inevitável de uma noção de morte, sempre a
rondar por perto. As emoções desembocam em inúmeras percepções que passam por sucessivas fases de
descoberta, de conhecimento e de ajustamento a cada circunstância, podendo mudar para situações que nos
ajudam a adquirir uma visão mais positiva e reconciliada com a realidade e com tudo o que dela se sente. A
música de Jazz pode ser associada a um enigma, uma passagem, uma entrada num lugar que nos é revelado pela
criação artística, e que insistentemente nos escapa, parecendo que se manifesta através de uma incapacidade de
compreensão sobre a sua verdadeira grandeza e impacto. Escrevemos para descrever um tempo, mais
preocupados com a localização de um espaço na nossa história pessoal do que em assinalar o verdadeiro
momento de assimilação estética, inerente a todas as possibilidades da música que ouvimos, e onde é possível
encontrar explicações pertinentes sobre o mundo. Estamos empenhados a redefinir o nosso calendário dos
acontecimentos, depois do momento da sua audição, e em entender aquilo que na verdade compreendemos como
parte da essência de qualquer objecto artístico reflectido em cada indivíduo. A ausência de ideias nunca permitiu
que se estruturasse qualquer processo de entendimento sobre a natureza das coisas. Não podemos entender
porque é que actualmente se assiste cada vez mais no Jazz em Portugal, a uma taxativa e exagerada acentuação
das suas formas avant-retro ( neo-free ), que nos surgem totalmente desprovidas de empenhamento analítico,
rodeadas por uma mímica altamente rudimentar. O FreeJazz nunca foi um parque temático desligado da
existência dos seus músicos, nem da forma como eles o fizeram. Não se trata de um espaço de diversão, assente
numa elaborada forma de divertimento, criado artificialmente para um público ávido de espectáculos, como se
os seus sons pudessem conter a sobreposição explícita da imagens dos seus intérpretes, e estes nos aparecessem
como desenhos animados a caminhar por entre a audiência. Quem visita este território simulado de prazer, está
submetido a um cenário pré-fabricado da alegria, seguindo um arquétipo da diversão sem sentido, onde a falta
de entretenimento tornaria as pessoas mais isoladas, mais carentes e mais dolorosamente entediadas. As utopias
degeneradas que invadem o nosso mundo apoiam-se no aparecimento de muitas organizações amolecidas e
pouco duradouras, associadas a estados de espírito amornados e desprovidos de ironia. Tudo parece encarnar
uma fé cega na tecnologia, fazendo com que o desenvolvimento e o progresso nos forneçam mais realidade do
que a própria natureza. Criam-se lugares onde os espectadores podem admirar abertamente a perfeição das suas
maravilhosas falsificações sobre a imensa paródia do mundo. A imaginação reflecte-se numa realidade que
atinge o absoluto estado de saturação no lugar onde já não somos capazes de distinguir a torrente das imagens e
a disseminação das suas retóricas e das suas ridículas simulações. Com Cecil Taylor, Bill Dixon e Tony Oxley
encontramos a naturalidade do mito, alimentado por um tempo passado, que se estrutura com fluidez numa
forma real e activa a pairar sobre o nosso presente. Sem concessões ao glamour e às poses de estilo, qualquer
pessoa pode entrar nesse oásis de fantasia revelado na profundidade e originalidade do seu piano. Cecil Taylor
vive dentro de um espaço hermético de actuação supra-musical, onde a técnica da utilização do corpo e as
correntes de emoções imaginosas conspiram insistentemente para nos manter aprisionados no interior das suas
fronteiras. Não precisamos de esquecer ou excluir quaisquer elementos que nos possam recordar a vida
quotidiana ou o nosso mundo exterior. Músicos como estes fazem-nos continuar afastados da extensão
deprimida da vida quotidiana, constituída por mitos contemporâneos adornados de sucesso, promovidos por
fantasias consumistas, apoiados por variadas formas de violência gratuita que persistem no caos gerado por uma
nova ordem planetária. A sua música não é fotogénica, nem é recente. Os seus concertos não são actos de
divertimento, repletos de imagens vazias e desertoras, refeitas de formas vulgares, a agir contra as boas ideias
reduzidas ao projecto inacabado de uma cultura terminal. As provas da sua autenticidade artística são
irrefutáveis e fortes, embora aquilo que se passa à sua volta deva ser interpretado com cautela. Esta música é a
configuração de um foco, uma unidade complexa e concentrada, definida pela teia cultural das relações estéticas
e criativas que constituem o feixe único de uma personalidade arrebatada. O carácter e os valores éticos são os
elementos que estruturam os princípios e apuram as condutas de uma vida. A diversão que é vista, por muita
gente, como uma fuga aos problemas que nos cercam, sempre procurou encontrar fórmulas de esquecimento que
sejam eficazes e que evitem a reordenação das nossas angústias. Os seres descontentes que conseguem recusar a
simplificação do saber e são capazes de criar uma fórmula alternativa ao conhecimento corrente, como aquela
que Cecil Taylor aperfeiçoou, através de uma música implicitamente democrática na sua mistura de vozes, pode
alcançar amplos recursos de sobrevivência. A liberdade desta música zela de uma forma notável pela supressão
da insignificância, a qual se vai instalando pacatamente em todas as hierarquias opressoras.


Orquestra de Jazz de Matosinhos

Ao assistirmos a uma diferenciação, cada vez mais intensa, nos diversos códigos de expressão e nos vários
contextos culturais, estamos a afastar-nos da ideia de uniformização global que durante algum tempo pairou
sobre as nossas mentes, como um receio legítimo sobre as consequências sociais da modernização. Apesar deste
processo de transição não ser muito linear, temos hoje em dia uma percepção muito mais apurada das várias
fórmulas existentes em interacção e do modo como se tem vindo a desenrolar o seu reconhecimento. A realidade
elabora-se através da ideia de arquipélago , como um quadro desenvolvido no espaço, retalhado sobre um plano
cultural, suportado por uma relação que continua fortemente interligada à sua componente económica. O efeito
causado por esta ordenação deixou para trás das nossas histórias mais recentes alguns fantasmas que se
situavam no perigoso fenómeno da aculturação, da unificação e da homogeneização das culturas. O conjunto das
palavras de cunho profético, reverentemente expostas nas várias teorias liberais da modernidade e nas quais era
considerada a existência de um relacionamento indissolúvel na ligação do capitalismo ao individualismo, foi
ultrapassado por uma fase ainda mais subjectiva que transformou a visão simplificada e universal de olhar o
mundo, num velho problema essencial da humanidade: a resposta sobre o futuro da cultura ocidental, na
apresentação sempre contraditória da forma rígida e definitiva, através da qual esta se passa a desenvolver e, de
certa maneira, se deixa submeter. No meio de um desenvolvimento disperso e fragmentado, percebemos a
consequência da necessidade de redefinir as mais amplas manifestações das nossas formas de actuação e a nossa
própria insistência em encontrar processos de resolução locais - múltiplas soluções de descoberta que revelam
formas de expressão estruturadas em variantes culturais, fora do pressuposto do monolitismo e exclusivismo
global. A dispersão de um contexto que, durante muito tempo, teimou em estruturar a sua compreensão numa
prática de racionalidade que pretendia assumir uma dimensão universal, fez-se reaparecer em muitos momentos
de contraponto sobre esta ideia e sobre este relativismo total das nossas acções como uma necessidade de auto-
afirmação, elemento básico de identidade. Visto inicialmente como um meio de sobrevivência, no reino das
antíteses, dos opostos, da falta de supremacia e do hegemonismo obstinado do Ocidente, o pluralismo dinâmico,
aberto ao confronto e ao hibridismo, aparece agora na reconstrução de uma plataforma aberta, localizada na
ultrapassagem dos limites extremos de uma concepção de modernidade pós-universalista. A diferença como
modelo de integração dos indivíduos, com origens em diversos grupos e assente numa coexistência de sistemas
culturais predispostos à sua contaminação, começa a caracterizar de maneira clara as visões e os valores do nosso
tempo. A possibilidade de não existir um parâmetro único e, paralelamente, a impossibilidade de tornar
mensurável uma métrica de interesses, obriga-nos a pensar numa constante redefinição para a reconstituição do
simbólico. Estes redimensionamentos estruturais permitem que se mantenham e definam muitas das situações
culturais que, aparentemente, entrariam em colapso perante as mudanças rápidas das estruturas sociais e
económicas actuais. Neste sentido, a experiência da Orquestra de Jazz de Matosinhos reafirma de uma maneira
natural a proeminência destas novas formas de pensar a realidade presente, recolocando a importância da ideia
de lugar sobre o imenso espectro de opções espaciais em permanente alteração. A superfície aberta pelas
formações de interesses dos seus músicos e pela necessidade de pertença a um local, funciona como pressuposto
de entendimento onde todos poderão preservar ou adquirir conhecimentos. Este colectivo incentiva o
desenvolvimento de mecanismos de relacionamento que pretendem zelar pelo legítimo processo de construção de
uma identidade assumida, actuando como elemento imprescindível de sobrevivência no difícil momento que
estamos a atravessar.



Mark Turner & OAM Trio

A simplificação da linguagem tem exercido sobre os músicos, e sobre muitos outros artistas, um intenso fascínio.
Depois de ultrapassada a fase das grandes construções conceptuais sobre a arte e a filosofia, aparecem formas de
análise e algumas atitudes que vão passar a concentrar a sua atenção em coisas de menor envergadura, mais
fáceis de entender. As áreas onde recaiu em tempos essa atenção eram estruturadas ao ritmo das preocupações
dos meios informativos. O empolar dos assuntos do dia tornou-as invisíveis, abrindo uma nova espécie de
representação que não pode oferecer um entendimento ético sobre o mundo. O desenvolvimento das nossas
experiências criativas pode alcançar uma prática de exploração que se tornará crucial para o futuro, explorando
a vulgaridade da linguagem como projecto não ortodoxo da elaboração de significados e da resolução de
problemas. Procuramos uma interessante maneira de combater o cepticismo e a descrença generalizada, ao
tentar encontrar um espaço que nos salve do distanciamento irónico em que nos encontramos, de forma a evitar
a concretização de uma perda fatal da nossa fé. A dúvida aparece-nos disfarçada numa atitude de desconfiança
sobre a razão, impedindo o prazer de gozar as certezas simples do nosso dia-a-dia e as aquisições naturais dos
conhecimentos. A arte situa-se neste terreno difícil de actividade, onde variadas forças em confronto podem
entrar em colapso, destruindo rapidamente todas as manifestações que desejem evitar os olhares de um duro
cepticismo. Poderemos adquirir uma posição preponderante sobre o que nos cerca e fazer como aquele
indivíduo, que ao saber que não pode ganhar, comporta-se de uma forma suicida perante a necessidade de
enfrentar um mundo completamente destituído de razões susceptíveis de serem alcançadas. A busca de
simplificações e de explicações sustentadas na humildade das nossas procuras interiores utiliza formas vulgares
de linguagem que podem permitir a reconstrução do nosso quotidiano, ao restabelecerem compromissos de
descoberta sobre um mundo transformado numa concepção inacessível. Com a valorização do simples acto de
pensar, a rotina, como tudo aquilo que não nos permite sair do habitual, pode ajudar-nos a imaginar respostas
sobre a valorização do que se poderá fazer para sair deste impasse. A música, ao ser uma manifestação criativa,
também sofre dos problemas da escolha de linguagem, dimensionada numa querela que se situa entre o lado
mais céptico e racional, e o seu oposto mais intuitivo e ingénuo - um encontro de uma duplicidade que se fascina
na simplicidade da beleza das coisas vulgares e quotidianas. Devemos preocupar-nos em encontrar o fluir
inacabado dentro do espaço comum de vida - to flow seria «o estado em que as pessoas estão tão envolvidas
numa actividade que mais nada parece importar».
A pertinência destas manifestações não traz consigo situações tão espectaculares como aquelas em que as redes
de informação e de imagens se apresentam diariamente. O valor deste método de situar a criatividade reside na
importância do seu significado, que não está relacionado com o tamanho ou com a espectacularidade dos
acontecimentos. As imensas possibilidades de adestramento da nossa capacidade imaginosa, quando
confrontada com o discurso apocalíptico recorrente, tolhem-nos por completo. A música de Mark Turner e do
OAM Trio cumpre precisamente este pressuposto de simplicidade, criando espaços depurados e utilizando
linguagens simples, susceptíveis de nos induzir na procura de respostas sobre os problemas que enfrentamos. A
sua eficácia não revela uma perda de significados relativamente às grandes narrativas do nosso tempo, nem pode
ser considerada uma faceta menor no contexto das músicas contemporâneas. A experiência do prazer não se nos
afigura uma situação tão mundana e leviana que impeça a descoberta de formas de superação artística,
convidando a repensar o estético e a mostrar uma imagem de nós próprios, na mesma força, como aquela que
muitas vezes sentimos estar associada às manifestações mais radicais das experiências quotidianas.



Vienna Art Orchestra

Um conjunto de corpos em interacção, unidos na busca de uma finalidade sonora, aproxima-se do conceito de
máquina. Existe uma totalidade que ultrapassa a soma das partes e constitui uma ideia chave nesta experiência
colectiva. Tudo se encontra entretecido numa unidade que, sendo muito apelativa nas formulações mais actuais
de identidade, faz com que os indivíduos e as organizações procurem desenvolver e promover as anunciadas
vantagens como formas de se adquirir um estado absoluto de bem-estar. Se considerarmos tudo o que nos
aparece extremamente dividido no contexto de um espaço onde paira uma espécie de angústia de uma totalidade
perdida, este modo de sentir torna-se uma tarefa evidente e repetida capaz de caracterizar os tempos presentes. A
máquina substitui a ideia de ligação solidária entre os indivíduos, que se organizam através de actos
combinatórios, compostos por exercícios físicos e pensamentos, paradigmas das motivações sociais que nos
envolvem e nos aliciam para modelos de organização seguindo as esperanças cegas das retóricas de salvação. Na
teologia cristã medieval a palavra para salvação é salus , que significava saúde. Existe pois uma relação entre o
mundo espiritual e os processos físicos que nos regem, organizados num elo plausível, efectivado nos conectores
políticos e nos activadores económicos relacionados entre si. A orquestra vista como um modelo actuante de
prática musical evoluiu e desenvolveu-se, tentando optimizar os seus recursos e criando novas concepções de
espaço sonoro. A sua música fez uma aproximação à lógica mecanicista do gosto pela racionalidade, que lhe
conferiu uma identidade própria e um estatuto crucial na definição da sua importância, tornando-se num
elemento actuante dentro do processo criativo. Toda a música que resulta do funcionamento deste corpo
compósito e múltiplo, através dos vários instrumentos que utiliza, introduz a ideia de sistema interactivo naquilo
que podemos apelidar de «elo retumbante» - uma ligação que impõe uma ordem de processos físicos, de forma
aleatória, e que vai criar resultados declaradamente diferentes dos produzidos por uma peça ou por uma
máquina isolada. A realidade presente é constituída por muitas parcelas e é inteiramente inconcebível sem uma
visão interdisciplinar que abra o conhecimento alcançado a partir da conjugação de tantas áreas de saber
distintas, a outros modelos de reflexão que nos façam mudar a forma como pensamos. Os problemas estéticos
reflectidos na tipologia do objecto artístico, actualmente produzido, avisam que o pensamento binário do
racionalismo ocidental aparece num formato residual, relativamente ao modelo de raciocínio clássico, o qual não
pode albergar ou explicar muita coisa. Precisamos de outras formas de olhar o mundo que abandonem o sistema
cartesiano dualista, o mesmo que opõe a ciência à superstição, o conhecimento ao erro, o facto à conjuntura e o
corpo à mente. A alternativa já não ocupa um lugar marginal no conceito de arte ocidental, não por esta ser mais
tolerada ou por existir uma forma consolidada de abertura dentro do sistema de pensamento corrente, mas por
revelar uma necessidade de mudança como parte intrínseca da realidade. Neste sentido, a orquestra é um facto
cultural, interpenetrado pela relação somada de cada uma das suas partes, entretanto estabelecidas em rede, no
limite desta organização. Podem colocar-se algumas questões resultantes dos problemas da existência e da sua
representação, mas nada permite saber o que lhe vai acontecer no futuro nem aquilo que a poderá substituir. A
abordagem que reconheça a importância desta acção combinada, por uma série de subtis influências geradas
sobre o que poderá vir a ser a orquestra, reconhecida como espaço de criação, pode ajudar a redefinir
imaginações e ideias, actuando sobre o seu devir e reconfigurando forças numa nova visão que disponha os seus
recursos utilizando modelos mais abertos de estratégia criativa e incentivando a temporalidade dos projectos, na
incerteza dos resultados e na ironia dos conteúdos. Este mecanismo complexo de instrumentos, pode funcionar
como uma ideia global que se exprime e modifica, que se recolhe ou exibe, que se desvaloriza criticando,
actuando de acordo com o conceito que se pretenda desenvolver num determinado período de tempo. A Vienna
Art Orchestra é um exemplo excepcional de gestão artística independente e marginal, sem cair nas facilidades
das rupturas fáceis e esperadas que se enfeitam em imagens num conteúdo vazio de intenções criativas. O
significado atribuído a esta máquina de expressão sonora não nega que cada entidade possa construir, pela boa
utilização dos meios que dispõem, uma identidade que nos dissuada de fazer das suas partes um fetiche de
diferenças individuais, ao impedir-nos de tomar erradamente o seu todo pela simples soma dos seus
instrumentos, como algo que aconteceu de uma maneira ocasional e surgiu como um apontamento de sorte, num
espaço de tentativas e de puro jogo.


AUTOR: IVO MARTINS 
EDIÇÃO: Programa Guimarães Jazz 2004 - Câmara Municipal de Guimarães/ Associação Cultural Convívio/ A Oficina     DATA: Novembro de 2004 







                                 INTRODUÇÃO


Temos cada vez mais dificuldade em nos situarmos num mundo onde a realidade é progressivamente
manipulada e definida pela omnipresença de imagens comerciais. Estas imagens dimensionam-se em artefactos
produzidos em série, num contexto saturado de solicitações, onde nada pode alcançar um estado capaz de
exprimir a totalidade do que nos cerca. Neste sentido, a arte surge como uma tentativa, sempre parcial, de
captação e interpretação da realidade em permanente mutação. A música não pode escapar a este momento
totalizador, que veicula uma frieza inquietante. Ao sugerir tensões e ambiguidades, desvia-nos a atenção da
alquimia das emoções pessoais e do sentido poderosamente revolucionário das percepções imaginosas. O Jazz,
como todas as imagens da nossa vida, assume uma narrativa onde o impacto e mistério se vão acumulando
através do poder de acesso a uma história rica em fragmentos, ao mesmo tempo que se apresenta pouco
articulável em ideias coerentes - modificações resultantes de um regime de alteridade que se expande pelo
mundo. A clausura existente neste espaço de imaginação e de memória, que se situa no tempo actual, difere
daquela que, no passado, forneceu referências mais livres de interesse e elementos úteis aos nossos processos de
compreensão, os mesmos que agora nos aprisionam a um apurado sentimento de perda e de encobrimento. Neste
território de actuação, o artista é o receptor de uma enorme confusão causada por muitas solicitações redentoras.
Ele aparece num pequeno ponto solitário e central que se desenvolve no interior de uma galáxia de ideias e que,
no caso concreto do Jazz, se organiza através de um arco musical envolvente, comportando-se como uma
atmosfera comercialmente protectora. A arte exprime-se pelo aparecimento de angústias e dúvidas, e pelo
desenvolvimento de demónios que deixaram de reflectir o interior de uma alma complexa na sua luta pela
sobrevivência, no momento em que criatividade perdeu definitivamente as suas características de superfície
articulada pela intimidade individual, em confronto com o religioso, o social e o político. Os poderes sagrados e
naturais, capazes de tornar o artista numa personagem grandiosa do nosso tempo, são inerentes à constituição
de uma finalidade última de existência: a arte como um derradeiro momento de liberdade. A cultura massificada
funde-se na multidão de personagens, seres comerciais usados como elementos propiciadores de consumo, peças
obedientes de uma indústria de entretenimento em expansão. O mais interessante e o mais estranho de todas as
personalidades recentemente construídas por uma sociedade que se estrutura no empobrecimento e no vazio dos
seus conteúdos culturais, é conseguirem provocar um enorme fascínio, capaz de superar em nitidez e
proximidade a realidade de onde partiram, sendo mais reais do que o próprio real. O Jazz confirma essa ideia de
miragem, onde não pode existir uma distinção clara entre todas as imagens que o constituem. A arte e o sucesso
são vistos como acontecimentos de glorificação e de ascensão. As relações antigamente estáveis entre músicos,
instrumentos, géneros, tipos, discursos, narrativas, e o seu contexto exterior, são agora aspectos marginais numa
conjuntura que se define por uma óptica de comércio e lucro, tendo relegado para as suas margens os assuntos
da estética, da ética, da autenticidade, da originalidade e da criatividade. O Jazz é actualmente uma espécie de
ideia platónica, uma idealização para uma minoria perdida no meio de um amplo processo de uniformização
sócio-cultural, onde o fenómeno se desenvolve muito para além do facto de representar um país ou uma
civilização. A música deixou de se estruturar de uma forma socialmente solidária para com os povos humilhados,
tal como muitas das manifestações musicais urbanas que existiram no passado, por não passar de mais uma
forma de expressão no meio de tantas outras coisas materialmente atractivas. A música perdeu para sempre a
sua função de ícone e a sua capacidade de incentivar mudanças urgentes nas sociedades por onde proliferou. No
pólo oposto do seu estado original e do espaço singular da grandeza como acto criativo, o Jazz transforma-se
num local onde os inúmeros elementos que nele intervêm são meras unidades intermutáveis e relacionáveis numa
série infindável de identificações e conceitos, agora associados à imagem absorvida pela sua própria realidade.
Tudo caminha para um momento disforme de rarefacção cultural, onde qualquer figura é um espaço ambíguo e
incoerente, redefinido no jogo instantâneo de muitos momentos caracterizados por uma total ineficácia criativa.
Os afro-americanos emprestaram à cultura do Jazz a riqueza dos seus fragmentos históricos, a variedade da sua
experiência baseada na pessoa marginal que soube correr riscos, que assumiu ter ambições e actuou a partir do
seu sentido de improviso. O artista encontrou-se numa posição em que foi obrigado a testar permanentemente os
seus limites, recusando-se a escolher os vários papéis padronizados que a sociedade coercivamente lhe
estabelecia. A sua liberdade construiu-se a partir da renúncia, edificada na capacidade de desenvolver, pelo
contacto com o perigo, um aperfeiçoamento de estilo. De escolha em escolha tentou ultrapassar a visão da
cultura como forma opressiva, impedindo que a sua prática se limitasse à selecção de uns quantos ideais pré-
determinados e artisticamente correctos. O músico afro-americano conseguiu adquirir, através de um legado
histórico muito complexo, importantes referências de credibilidade, assentes na sua própria narrativa, apoiada
nas tradições e no pensamento social e político que influenciou de uma maneira muito peculiar a sua cultura. O
Jazz é uma dos exemplos extremos deste relacionamento. Quando se verificou o encontro do Jazz com a música
tradicional europeia, revelou-se de uma maneira transparente o que ele trazia dentro de si - momentos de
profunda rejeição e de um radical processo de auto-negação. Neste encontro de músicas e abordagens, firmado
numa matriz civilizacional coincidente, com experiências de vivências históricas diferentes, foi relativamente
fácil verificar como se fez a definição de papéis dos seus interventores. No lado oposto deste processo
comparativo situou-se o campo europeu da música que enfatizou o elemento de abstracção estética do Jazz,
muito distante dos problemas de liberdade e de raça que este transportava. Como dizia Nietzsche, «aquilo que
não nos mata, torna-nos mais fortes». O Jazz é uma narrativa que reitera e consciencializa um estado de
superação sobre as suas próprias ironias, onde a justiça e a democracia permanecem distantes e incapazes de
resolver os seus problemas. Por vezes sentimos que estamos submetidos a uma sensação oposta de fascínio e
desilusão, onde o declínio se expande de maneira tentacular por todas as partes do mundo, e nos faz ficar mais
despertos sobre a destruição cultural que vem acontecendo.
[ ENGLISH ]
Ron Carter

O olhar do público ou do fã torna-se, em última análise, no olhar do eu sobre o corpo objecto. A inocência e a
trivialidade que exprimem a exibição dos corpos são um facto corrente dos nossos dias. Vivemos uma era em que
tudo deixa transparecer a necessidade de auto-promoção para podermos existir e onde corpo assume um papel
fundamental na determinação dos limites do nosso ser, servindo como cartaz promocional para um ego
individual diminuído ou cheio de poder. A publicidade massificada ajuda a manter o estado de irrupção
excessiva dos sentidos que expõe exibições redundantes sobre cada pessoa, numa manifestação sem precedentes,
onde os corpos seleccionados pelas suas características fotogénicas se empenham em conquistar espaços de
sobrevivência. Todos procuram achar uma nova plasticidade para a sua imagem, que passou a ser um produto
manipulado numa perfeição que actualiza as visões do corpo sem mácula, no meio de muitos utensílios
futuristas. A maior parte das estrelas de cinema, dos cantores pop e dos manequins tem de projectar o seu corpo
como se fosse uma espécie de subtexto sexual. Por vezes essa narrativa é pura performance . A moda ajudou a
alargar esse processo, ao substituir um acto de apresentação de roupa, por uma coreografia altamente
personalizada e teatralmente sexual dos corpos em movimento. Os corpos, a moda e a perfomance , fundem-se
sob o olhar disciplinador e castrador das câmaras, produzindo em figuras gravadas uma mercadoria electrónica.
O mundo está permanentemente a ser inundado por imagens em série, que nos ocupam a atenção e nos
submetem a uma nova mitologia, assente no fascínio e no glamour da cultura mass-media , que passou a
endeusar o design comercial e a atribuir aos publicitários a suprema tarefa de excitar a estimulação de desejos. A
análise crítica daquilo que é a realidade presente não pode ser reduzida à retórica mundana e vazia de uma mera
sátira de costumes, onde as ironias abundam por entre desastres, anorexia, desfiles de beleza, pornografia,
culturismo, cosmética, silicone, cirurgias plásticas, corrupção, overdoses e política. A criação de uma ilusão já
não possui o efeito utópico de uma profecia, sentida como a possibilidade de encontrarmos um corpo belo, que
seja sinónimo de saudável e que, nesse sentido, justifique todo e qualquer sofrimento. O que veicula este estado
de procura absoluta de bem-estar, inseparável da busca da forma ideal, é a náusea que as pessoas sentem das
suas próprias imperfeições. A combinação da música, movimento, escultura e corpo gera um consumado
artefacto multimédia, misturado nas suas origens eclécticas e desenraizado nas referências que utiliza,
compondo uma performance cinética e audiovisual digna da teatralidade dos grandes espectáculos. O corpo
perfeito, o corpo recuperado através de uma cosmética poderosa, conseguida pela prática intensiva de exercício e
terapias biomédicas é, além de um evidente sinal de dor e de auto-punição interior, um fac-símile da visão
ideal/irreal daquele que o possui, apresentando-se como uma espécie de ícone da superação dos limites. Este
corpo, alterado por factores de restrição e de medo, transforma-se num espaço estranhamente desmaterializado,
como o sorriso perfeito de uma estrela de cinema. Existem imensos perigos implícitos à fixação de imagens de
perfeição. O seu poder de embalar em fantasias o paraíso consumista em que habitamos, onde a felicidade cega
requer todas as compras de equipamentos para que se possa alcançar uma metáfora do bem idealizada no corpo
perfeccionista, torna os objectos desta visão em corpos dolorosamente reinventados através da fotografia
comercial, para depois se revelarem como únicos símbolos de perfeição na degradação circundante. As
dificuldades de viver nesta realidade construída por mecanismos de transmissão de imagens seriam
inultrapassáveis se o mundo estivesse absolutamente afastado da música ou da arte. Essa falta roubar-nos-ia um
dote biológico indispensável ao conhecimento e à auto-preservação, arrastando a nossa cultura a parâmetros
irreconhecíveis. A música de Ron Carter é o momento ideal para se dar forma a uma cultura que soube viver
abaixo dos mitos da perfeição localizados nas nossas fantasias utópicas. Ron Carter soube situar-se por fora do
limbo das ideias ultra estandardizadas da moda corrente, revelando uma atitude de resistência perante as
tendências da nossa cultura que só encoraja a agressividade e a competição. A sua música destitui os locais
privilegiados de transformação utópica e aplaude aquele que descobriu que todos esses momentos nada valem,
quando afirmou que «o imperfeito é o nosso paraíso».


Dewey Redman

Quando finalmente percebemos que somos uma consequência de um processo de auto-criação individual, damos
um importante salto nas nossas vidas. Não retiramos nada que pertencesse aos deuses, nem os deuses nos
legaram algumas das suas qualidades sobrenaturais. Nesta passagem abrupta da existência humana, situada
num antes para um depois em que deixamos de acreditar, dá-se uma visão revelada através da forma simples de
um oposto, que pressupõe um apurado processo de aperfeiçoamento analítico e de superação ontológica. A
crença nas nossas capacidades e possibilidades, perante o meio adverso formado pelas várias culturas existentes
e pelas suas construções belicosas, confirmam que sempre existiram e vão continuar a existir pessoas que
souberam chegar à sua libertação individual, ao contrário de outras que se deixaram ficar enredadas numa
fatalidade determinada pelos seus deuses e pelos seus representantes mais terrenos. Se quiséssemos localizar os
primeiros indícios do nascimento desta oposição teríamos de procurar muito atrás, no meio das nossas histórias.
Hoje este problema continua perfeitamente actualizado, ao existirem pessoas que, de uma forma cúmplice,
mantêm vivo este confronto. Apoiados numa série de ideias conformistas de olhar o mundo, desejamos e
clamamos por mudanças urgentes, ou alguma reforma que altere a disposição das instituições e das organizações
que se foram instalando no terreno do nosso quotidiano. A aspiração redentora para o mundo é traduzida em
função do seu lugar, do seu tempo, da sua economia, da sua política, da sua cultura, factores que sempre
ocuparam a parte fundamental da história do Homem. Tudo parece indicar que o confronto de interesses
culmina numa clivagem inultrapassável sobre a nossa natureza, sendo portanto um problema insolúvel. Apesar
de podermos ser portadores de sabedoria e de conhecimentos que actualmente ultrapassem todas as
expectativas, a dupla natureza das nossas origens faz com que os acontecimentos continuem a dirigirem-se
indeterminadamente, ora para o bem, ora para o mal. As oposições e os confrontos fazem parte da nossa vida
como se estivéssemos permanentemente no centro de uma tragédia, onde as personagens entram em contradição,
não sendo capazes de defender nenhum ponto de vista que não o seu. Cada uma delas se sujeita de uma forma
cega e radical à lógica absolutamente incompatível da negação do outro , numa luta sem tréguas e sem
compaixão, esquecendo-se que neste difícil contexto poderão nunca ter razão, pois nunca haverá uma última
palavra no plano lógico das coisas e das pessoas. A essência deste momento não é ser razoável, nem adoptar uma
atitude de compreensão perante os problemas que nos envolvem. O lado contrário é o mais importante ponto de
referência desta postura, e a única finalidade existente será levar até às últimas consequências este estado de
contacto antagónico, de forma a encontrarmos uma definição para os nossos papéis e atingirmos uma sensação
agradável de utilidade que justifique viver.
Ao aparecer, a determinada altura da tragédia, a ideia de auto-limitação, esta vai tornar-se num elemento
indispensável dentro do seu contexto, justamente porque somos terríveis e porque nada no exterior pode limitar
verdadeiramente esta faculdade de se ser terrível. O dilema vem na sequência de uma impossibilidade, na qual o
homem nunca terá mecanismos suficientes de dissuasão contra as tendências de gostar de explorar confrontos e
antagonismos, nem de fazer prevalecer sobre os outros formas não violentas que resultem desta prática. Assim
sendo, como podemos conseguir sobreviver dentro deste problema que se estrutura de maneira extremamente
redutora, ao enfatizar a importância dos opostos? Tudo está preparado, desde logo, para suprimir todos os que
não seguem os movimentos apaixonados da dominação. O homem é, como se disse, uma auto-criação, e este
facto induz em nós uma dose razoável de compreensão, situada nos vinte séculos de obras grandiosas e de
monstruosidades criminosas que foram cometidas em nome das melhores razões. Viver neste momento difícil
pode depender da forma como estabelecemos os nossos compromissos sem nos deixarmos arrastar pelas
simplificações contraditórias. Incentivar uma liberdade que se situe por fora desta espiral de violência que
submete tanta gente sempre acompanhada por uma retórica justificativa e jocosa razoável em palavras de
persuasão, poderá ser a melhor maneira para enfrentarmos os contornos grotescos da vida. A música de Dewey
Redman estabelece a inteligente relação entre duas grandes formas históricas que se definiram durante muitos
anos e que determinaram as nossas visões sobre o mundo. Estruturadas na oposição, tradição versus
modernidade, os lados destes dois elementos do nosso contraditório diário requerem soluções. Evitar anulações e
não ditar conteúdos permite entretecer cada uma das suas partes, criando e imaginando objectos de arte que se
revelam como processos essenciais de reflexão e de reconstituição do nosso entendimento.