ENTREVISTADO: IVO MARTINS
ENTREVISTA: Joana de Deus     DATA: Abril de 2016 





Como e quando é que começaste a fazer rádio?
Comecei a fazer rádio em 1988, na Rádio Delírio, uma estação pirata no Porto. Sempre me interessei por música
e tinha lá amigos. Nessa altura havia muitas rádios piratas em todo o país, formadas por pequenos grupos de
pessoas. Foi ali que nasceu O Baile dos Bombeiros.


Qual é a história do nome do programa?
Lembrei-me do nome porque tinha visto o filme do Milos Foreman há pouco tempo e porque as festas dos
bombeiros tinham uma grande tradição na minha terra (Santo Tirso). Fazem parte do meu imaginário de
infância e de adolescência. Para os meus pais e para os meus avós eram acontecimentos sociais muito
importantes, onde pessoas se encontravam para dançar e se conheciam. Havia uns quantos bailes por ano e eles
sempre os frequentaram. Por outro lado, eu não queria que o título tivesse uma conotação directa com o tipo de
música que passava, tinha de ser suficientemente ambíguo para não me impor limitações de género, nem de
formato… e assim ficou até hoje.


Como é que era o BB [Baile dos Bombeiros] em 1988?
É parecido com o de agora: um programa de autor, aos domingos à noite, com duas horas, um disco em cada
hora. A única grande diferença era ser em directo e ter mais tempo falado. De resto, sempre fiz questão de passar
os discos na íntegra, porque é assim que eu ouço música. Gosto de ouvir um disco de uma ponta à outra, na sua
sequência original. É como ler um livro ou ver um filme. Claro que pode apetecer-me voltar a partes específicas,
revisitar excertos, mas não é essa a minha prática habitual.


Que música passavas?
Jazz, música improvisada que se fazia na altura, Weather Report, Wayne Shorter... discos acabados de sair,
gravações recentes, que me entusiasmavam. Lembro-me de ter passado o In All Languages (1987) do Ornette
Coleman ou o Letter From Home (1989) do Pat Metheney.


Como é que descobrias música nova? Onde é que compravas discos?
Andava sempre atrás dos discos. Comprava muitos na Tubitek, no Porto, e ia muitas vezes a Vigo abastecer-me.
Sempre que tinha amigos a viajar para Inglaterra ou para os Estados Unidos pedia-lhes para me trazerem discos.
Descobria música nas lojas, nos livros, em conversas, mas sobretudo nas  revistas. Chegava a comprar oito ou
nove revistas por mês, norte americanas e francesas. Algumas mandava vir por telefone, de Lisboa. E assinava a
Cadence. As revistas eram essenciais para preprar os textos do  programa, tinham todas as informações que eu
precisava para falar sobre os músicos e os discos que passava.


De que é que falavas?
Preparava um texto biográfico, para situar as pessoas, que falava um pouco do percurso do músico ou do grupo
que estava a tocar, focando-se em aspectos particulares do seu trabalho. Cada texto tinha em média vinte
páginas. Eram cerca de vinte minutos a falar em blocos de cinco, entre faixas. E depois também falava do que eu
sentia perante aquela música, da minha experiência pessoal, sem grandes esquemas de classificação ou divisões
de género, para libertar o programa da componente biográfica dos artistas. Preparava textos como exercícios
criativos, que misturavam informação e emoção. A rádio ajudou-me muito a aprender a expressar-me e a ter uma
prática de escrita. Até porque escrever textos para serem ditos não tem nada a ver com escrever textos para serem
lidos. É todo um outro mundo. Como é ler para a rádio sem ser de uma forma radiofónica... sempre odiei o tom
radiofónico, as vozes radiofónicas, pela impessoalidade.


E o genérico?
O genérico mudou três vezes ao longo dos anos, mas sempre teve a ver com as marchas dos bombeiros. Durante
toda a minha infância e até meados de 1990 as duas cooperações de bombeiros de Santo Tirso tinham as suas
bandas que ensaiavam nos quartéis, perto de minha casa. Por vezes, aos domingos de manhã saíam em paradas
pelas ruas para recolher donativos das pessoas - eram bombeiros voluntários. Lembro-me de os ouvir desde
sempre, a música que tocavam é-me muito familiar. Tentei escolher para o génerico temas que remetessem para
essa sonoridade, esse espírito.


Quais foram os temas?
O primeiro genérico era o tema “Jackie-Ing”, do Thelonious Monk, tocado em crescendo... tipo Bolero de Ravel,
num arranjo de Mark Bingham. Não era bem uma marcha, como actualmente, era uma melodia repetida em
crescendo que acabava com a orquestra em apotese. O segundo genérico era uma marcha do John Philip Sousa
tocada pelo Bill Frisell, chamada “Washington Post March”. O terceiro e actual é de um compositor
contemporêneo, Andy Creeggan, e chama-se “Izzy”. Os dois últimos genéricos já foram feitos para a RUM - Rádio
Universitária do Minho.


Como é que o BB foi parar à RUM?
A Rádio Delírio fechou, como muitas outras rádios piratas, quando saiu a lei da rádio em Portugal, em 1989. Foi
criminoso terem-nas fechado, eram dezenas, ninguém fazia dinheiro com aquilo. Não tinham praticamente
apoios, não tinham publicidade, muitas eram em estúdios improvisados na casa das pessoas. Eram o equivalente
à internet hoje em dia, um lugar de expressão e partilha, onde qualquer pessoa podia entrar. Entretanto o BB
esteve na Rádio Fundação, em Guimarães, cerca de três anos. Foi através do Miguel Laranjeiro, que na altura era
lá jornalista. Tinhamos sido apresentados por um amigo em comum de Guimarães e eu falei com ele para levar
para lá o programa. Em 1993 a tutela da Rádio Fundação mudou e eu achei que era uma boa altura para
encontrar um estação que tivesse mais a ver com o espírito do BB, que não fosse tão generalista... uma rádio mais
orientada para a música e para programas de autor como o meu. Já tinha ouvido a RUM e pareceu-me o sítio
ideal. Já não me lembro bem, mas acho que telefonei para lá, falei do programa, mostrei interesse em trabalhar
com eles e assim foi.


Desde 1993 até hoje o que é que mudou?
Mudaram algumas coisas, porque o contexto muda. Deixei de fazer directos, a RUM já tinha condições técnicas,
os programas passaram a ser gravados em beta. Mas o aparecimento da internet foi para mim a maior mudança,
porque a  informação que eu passava às pessoas começava a estar toda disponível online. Por outro lado também
comecei a escrever para outros sítios, várias revistas, os textos do festival [Guimarães Jazz]... era trabalho a
mais. Então fui adaptando o formato: em cada programa continuei a apresentar dois discos, um em cada hora,
divididos por takes pré-gravados de 4 minutos. Ia à rádio de vez em quando e fazia entre 40 a 50 takes seguidos,
em tempo real, sem apontamentos. Deixava lá os discos para  serem passados e o Sérgio Xavier montava o
programa. Foi um novo ciclo de aprendizagem para mim, pude experimentar formas de expressão e de
improvisação em tempo real, que me ajudaram muito a falar em público e lidar com a minha timidez. Ao mesmo
tempo premitiu-me atingir níveis de liberdade de expressão e de espontaneidade únicos, que a escrita jamais
premitiria.


Ainda assim, mais recentemente, optaste por deixar de gravar...
Não foi bem uma opção. Eu adoeci em 2010, tive um ano com problemas de saúde e sem poder ir gravar. Nessa
altura o Sérgio Xavier, que sempre fez a produção do programa, substituiu-me. Eu enviava para a rádio pilhas de
discos que gravava em casa, e o Sérgio fazia a sua própria pesquisa sobre esses discos e apresentava-os por mim.


Porque é que não voltaste a gravar entretanto?
Porque ao ouvir o Sérgio, a forma sucinta e clara com que ele apresentava o programa durante esse ano, gostei
muito e senti que não faria melhor. Por outro lado, com a informação que prolifera diariamente, faz cada vez
menos sentido para mim que o programa diga muita coisa além da música que eu escolho e quero dar a ouvir às
pessoas. A única diferença seria ouvirem a minha voz a apresentar os discos, e não a dele. Isto não quer dizer que
o BB não vá mudar, que não me apeteça fazer outras coisas no futuro...


Se tivesses escolher um disco por cada ano de existência do BB, representativos do programa e
da tua/vossa história, quais é que escolhias?
Foram muitos discos e de diferentes direcções estéticas. Custa-me eleger uns poucos em detrimento de outros
trabalhos excelentes. Prefiro enunciar alguns discos que foram apresentados no BB e que tiveram algum
significado para mim:

John Scofield - Loud Jazz - 1988
Wayne Shorter - Phantom Navigator - 1987
Heiner Goebbels - Der Mann im Farhstull - 1988
Bill Frisell - News For Lulu - 1988
Ornette Coleman - In All Languages - 1987
Gavin Bryars - Jesus Blood Never Feald Me Yet c/ Tom Waits -  1993
Vandermark Five - Target or Flag - 1998
Heiner Goebbels - Shadows/  Landscape With Argonauts - 1993
John Zorn - Masada - 1994/97
Ruichi Sakamoto - Beauty - 1989
Dave Douglas - The Tiny Bell Trio - 1994
ICP Orchestra - Bospaadje Konijnehol I - 1992
Django Bates - Music For The Third Policeman - 1990
Miles Davis - Tutu - 1986
Material c/ Bill Laswell - Seven Souls - 1989
David Binney - Free To Dream - 1998
Clusone Trio - I Am an Indian - 1993
Willem Breuker Kollektief - Metropolis - 1989
Tous Dehors - Dans La Rue - 1996
Carla Bley - Sextet - 1987
Carla Bley/Charlie Haden - The Ballad Of the Fallen - 1983
Michael Brecker - Michael Brecker - 1987
Jaco Pastorius - Portrait of Jaco: The Early Years, 1968-1978 - 2003
Peter Erskine - Poet Motion - 1988
Bass Desires - Marc Johnson, Bill Friesell, John Scofield - Bass Desires - 1985
Liberation Music Orchestra - Dream Keeper - 1990
Lester Bowie - Brass Fantasy - Serious Fun - 1989
Vince Mendoza - Start Here - 1990
Uri Caine - Wagner e Venezia - 1997
John Abercrombie, Peter Erskine, Marc Johnson - 1989
Don Cherry - Art Deco - 1989
Art Ensemble - America, South Africa - 1990
Pat Metheny, Ornette Coleman - Song X - 1986
Bob Berg - Short Stories - 1987
Bob Moses - Story of Moses - 1987
Jamaladeen Tacuma - Renaissence Man - 1984
Matt Wilson - Smile - 1999
Mal Waldron, Jeanne Lee - After Hours - 1994
Italian Instabile Orchestra - Skies of Europe - 1994
Steve Lacy - Anthem - 1990
Sonny Sharrock - Ask The Ages - 1991
Chano Dominguez - Hecho A Mano - 1996
Archie Sheep, Roswell Rudd - Live in NY - 2001
The New York Composers Orchestra - The New York Composers Orchestra - 1990
Ernest Dawkins  - New Horizon Ensemble: Sounth Side Street Songs -1994
Herb Robertson Brass Ensemble - Shades of Bud Powell - 1988
Wayne Horvitz, Butch Morris, Robert Previtte - Todos Santos
Nguyên Lê - Tales from Vietnam - 1996
Jon Jang - Two Flowers On A Stem - 1996
Keith Tipett - Linuckea - 2001
Gerry Hemingway Quintet - Special Detail - 1991
Pino Minafra - Sudori - 1995
Don Byron - Tuskegee Experiments - 1992
Butch Morris - Testament: A Condution Collection - 1995
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