AUTOR: IVO MARTINS     IMAGEM: GABRIELA ALBERGARIA - QUATRO CAMINHOS, DUAS ÁRVORES [DETALHE] (2007) POR PEDRO SILVA 
EDIÇÃO:
(Catálogo) Centro Cultural Vila Flor     DATA: Setembro de 2008 
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O homem moderno não pode estabelecer a sua relação com a
natureza como uma relação de dominação (Descartes: senhores e
possuidores da natureza) a não ser estabelecendo a natureza como
um conjunto dos objectos inertes e a sociedade como sujeito de um
domínio racional.


Cornelius Castoriadis
Todos os lugares podem ser espaços habitáveis no contexto de micro-comunidades que se vão redefinindo pela
utilização recorrente de poucos metros quadrados. À medida que o espaço vital é reduzido, os corpos adaptam-se
à diminuição progressiva dessas superfícies circunscritas, ainda assim capazes de garantir algumas formas de
sobrevivência.

O progresso urbano preparou os recantos de uma vida presente em que os habitantes das cidades ficam cada vez
mais restringidos aos limites indefinidos das áreas construídas. A arquitectura redecorou com grandiosos
edifícios de vidro suportados por redes de cabos de aço e ferro soldados, projectos de uma cidade imaginária,
erguida na acumulação de imagens de corpos-objectos envoltos de uma natureza esquecida e transformada.

Gabriela Albergaria trabalha a natureza através de um conjunto de preocupações que se relacionam com a perda
de referência, ou seja, a ideia de uma natureza que se sujeita a sucessivos processos de humanização e se
apresenta incapaz de sobreviver num mundo onde a proliferação de espectros e simulacros de ambientes naturais
supera a própria realidade.

Através de processos de organização preestabelecidos que têm em consideração o espaço envolvente, a artista
reproduz um conjunto de acções de mediação entre os elementos naturais e a tecnologia enquanto aplicação de
conhecimento. Nesta forma de proceder, há uma clara procura de uma solução de equilíbrio que não seja
agressiva para com o lado que, apresentando-se deslocado do seu meio natural, surge inevitavelmente mais frágil
e dependente. Durante milhões de anos a natureza dominou o Homem, imponde-lhe limites em todo o tipo de
actividades relacionadas com a sua sobrevivência. Presentemente, a ideia de um mundo natural, aparece-nos
como algo de controlável e passível de ser anulado em nome concepções subjacentes a noções de progresso e
desenvolvimento, que não se prendem de todo com a satisfação de necessidades básicas.

Ao manter-se numa escala de referência que remete para uma simbologia essencial da natureza, esta obra
procura desencadear processos de recuperação, não no sentido de um retorno a uma concepção original mais
pura, mas de proteger, pela reprodução de uma série de tarefas de atenção e de zelo, advindo desta dualidade
uma forte carga metafórica.
Esta exposição, projectada para o Centro Cultural Vila Flor, baseia-se na organização de dois territórios,
partindo de lógicas de apresentação completamente distintas. Numa abordagem contemporânea que procura
desenvolver e explorar as particularidades de um lugar específico, possuidor de uma enorme componente
histórica, é reunido um conjunto de obras e ideias, com o objectivo de estimular o estabelecimento de diálogos e
confrontos entre os diferentes elementos presentes.

No primeiro piso, apresenta-se um conjunto de trabalhos, maioritariamente tridimensionais, dispostos numa
perspectiva longitudinal - norte / sul - que sugerem diversos mecanismos de aproximação à natureza. Um
desenho, como uma espécie de visão fragmentada de um ambiente arborizado, composto pela repetição
exaustiva de frames, propõe uma ordenação de pontos de vista para a composição de um espaço coerente. No
lado oposto, uma série de árvores são reconstruídas a partir de troncos e desperdícios sem vida; ao centro, uma
amostra de jardim sem intervenção aparente, é colocado sobre o tampo de uma mesa, sugerindo uma ideia de
transporte e reintegração. Nas paredes laterais, aproveitando a reentrância das janelas, duas caixas com outros
jardins são dispostas de forma a desenvolver uma relação de prolongamento, do interior para o exterior.

No segundo piso, que se apresenta divido em duas metades, orientadas no sentido este / oeste, as janelas e as
paredes a poente são utilizadas para narrar algumas referências históricas acerca do jardim do Palácio Vila Flor,
retiradas de publicações sobre o edifício, propondo uma espécie de reorganização de factos através do desenho
da palavra. No lado contrário, a nascente, uma série de fotografias de árvores e ramificações são completadas
através de desenhos.

A importância desta exposição, e da obra da Gabriela Albergaria em geral, é a possibilidade de se encontrarem
mecanismos de contratualização entre os significados contidos no seu trabalho e os espaços onde este se inscreve.
Ao evitar recriar formas de viabilização ou sustentação da biodiversidade, papel que actualmente é
exclusivamente confinado à ciência, a artista procura estabelecer, no absurdo e na estranheza das situações
apresentadas, um desencadear de actos isentos e livres capazes de ultrapassar pressupostos directamente
relacionados com a anulação ou protecção do meio natural.

As sociedades urbanas transplantaram a natureza para paisagens enfraquecidas, digitalmente projectadas.
Cenários foram arduamente edificados sobre actos improcedentes de ordenação e planeamento para a concepção
de uma nova categoria deser biológico, escolhido apenas pelas suas características fotogénicas. Ninguém pode
realmente conquistar os espaços ocupados pelo transtorno e desatino colectivos, nem reviver momentos extremos
de sobrevivência do passado, que agora se perdem na extensão de ruídos humanos, feitos de desejos impossíveis
de concretizar, ao mesmo tempo que produzem uma multidão de abandonados sem preocupações. Gabriela
Albergaria aborda estes e outros temas, pela reconstituição de uma nova plasticidade baseada nestes restos,
nestes subprodutos da memória veiculados a uma mutação onde as imagens manipuladas adquirem uma
segunda vida na imperfeição redefinida das visões do corpo.